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Lis Cereja
Lis Cereja é Graduada em Nutrição pela USP, Gastronomia pela Anhembi Morumbi e especializou-se em vinhos. Reúne em sua bagagem cursos de aprofundamento e estágios pelo Brasil, América Latina e Europa. É diretora e sommelier da Enoteca Sain Vin Saint. Apaixonada pela arte flamenca, também estuda cante.


España: Blanco y Negro
Qua, 30 de Setembro de 2009 22:37

Uma das vozes mais ciganas da Espanha atual é a do cantaor Diego el Cigala. Escolhi o nome de um de seus shows para dar início à esse texto e também à essa coluna: Blanco y Negro.

Neste show, El Cigala divide o palco com um dos pianistas mais bem reputados de Cuba: Bebo Valdés. O resultado não é diferente do que costumamos chamar de… divino. Bebo e Diego são duas figuras muito representativas de seus países, seja em sua música, sotaque ou maneiras; e conseguiram, de algum modo, encaixar-se com tal perfeição que fazem brotar lágrimas até dos olhos mais insensíveis. Aliás, uma das músicas de destaque do show é a belíssima “Lágrimas Negras”. Sem deixar de registrar aqui, claro, a versão flamenca de “Eu sei que vou te amar”, para deixar qualquer brasileiro, cubano ou andaluz de queixo caído.

Parto deste princípio para dar o meu ponto de vista sobre a cultura flamenca e espanhola em geral. Roubando o que o próprio Bebo Valdés diz (em um documentário de nome muito apetitoso entitulado “La cocina de Bebo y Cigala”), o folclore de cada país não necessariamente precisa existir sozinho e ser fechado em si mesmo. Aliás, a mescla sempre fez parte da história de todas as culturas; e quando nos focamos na cultura flamenca e cigana, isso é levado ao extremo. A cultura flamenca em si, como conhecemos hoje, é uma grande mistura de povos, línguas, ritmos, sons, cheiros e sabores que foram sendo adquiridos ao longo dos séculos. Exemplo fácil são os cantes de Ida y Vuelta, que se originaram nas colônias espanholas (como as Guajiras, originárias de Cuba) e voltaram para a Espanha para fazer parte do repertório flamenco dos dias atuais.

O que quero dizer com isso é que a Espanha, especialmente tocada por essa cultura cigana extremamente rica e imprevisível, tornou-se hoje um grande exemplo de como os contrastes e mescla de povos podem fazer surgir um todo extremamente interessante: lembranças nômades da Índia e arabescos mouriscos convivem com as tantas outras culturas que formam este país. Los gitanos, los payos (como são chamados os “não-ciganos”, pelos próprios)… os catalães (nunca diga que são espanhóis… são catalães, com muito orgulho!), os bascos… enfim. A mistura de raças e culturas não é exclusividade do Brasil, como muitos pensam.

Essa riqueza de influências faz da Espanha um dos países mais interessantes quando falamos de comida, bebida e arte. Aliás, com essas três coisas acredito que estamos bem perto do paraíso; e tenho certeza que há um guitarrista flamenco e um bom cantaor nas portas do céu, que nos receberão com algumas tapas y una copita de jerez quando chegarmos lá em cima…

Por essa riqueza, a Espanha também é uma terra de contrastes. De Blancos y Negros. O restaurante mais antigo do mundo é o “Botin”, e fica ao lado da Plaza Mayor, em Madri (aliás, o Cochinillo deles é tradicionalíssimo e fantástico); e o chef mais vanguardista do mundo, de forma impressionante, é do mesmo país: Ferrán Adriá, com sua cozinha molecular que tem seguidores no mundo inteiro, como los hermanos Torres (do “Dos Cielos” em Barcelona e do “Eñe” em São Paulo; que por sinal também servem um Cochinillo de cozimento extremamente inovador, à vácuo, mas igualmente fantástico), e próprio Alex Atala, do “Dom” de São Paulo. Passeando pelas regiões vinícolas encontramos mais extremos: das famílias nobres e tradicionais de Rioja que elaboram seu vinho da mesma maneira há séculos até empresas gigantescas (a Freixenet, por exemplo…)  com capitais extrangeiros e inovações tecnológicas em terroirs comercialmente novos como MontSant e Toro. Neste país temos iguarias que vão do mar à montanha em uma mesma região. Na Andaluzia, por exemplo: frutos do mar inesquecíveis em Cádiz e os melhores presuntos crus do mundo, os “Pata Negra”, em Salamanca.

O restaurante Dos Cielos, em Barcelona.  Foto por Lis Cereja

A conclusão é que devemos degustar a Espanha pouco a pouco, parte a parte. Suas inovações gastronômicas, suas receitas seculares, seus bares, suas tapas, seus vinhos, seu povo, sua língua, sua música, sua cultura. Pois ser flamenco não é necessariamente ter nascido gitano. Isso não diz respeito à nacionalidade. Todos que sentem as pernas tremerem e os olhos lacrimejarem ao ver uma manifestação de cante, guitarra ou baile sabem o que eu estou dizendo. O que nos faz flamencos é algo muito maior, um sentimento que nos abraça a alma e transborda de nosso ser das mais diferentes formas. É uma sensibilidade que nos une em torno desta arte. E não é a comida e a bebida uma forma de arte? Por que então não fazer como os espanhóis, payos ou gitanos, que saem em busca das melhores tapas, dos melhores vinhos e da melhor companhia para sair de juerga?

Bienvenidos y salut, a este mundo encantador da enogastronomia espanhola.

 


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