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Ele disse com toda clareza: “A maior virtude de um músico é saber ouvir”. O grande violonista flamenco Fernando de La Rua está no Brasil. Encantou o público paulistano no espetáculo “Por tus Rosas” dirigido por sua esposa e grande amor, Yara Castro, além de fascinar os clientes dos restaurantes Paellas Pepe e La Tasca.
Fernando de La Rua, cordial e educado como sempre, concedeu uma entrevista ao site Flamenco Brasil e nos contou um pouco de sua história.
 | Foto: Marcus Derencius
| Foi onde nasceu - Itapeva, cidade localizada no interior de São Paulo e de notável influência espanhola – que o guitarrista flamenco iniciou sua trajetória rumo ao universo da música. Começou tocando na igreja de sua cidade, afora ter pertencido a três bandas de gêneros musicais distintos: Rock, Pop e MPB.
Embora conhecesse o flamenco como cultura, este ainda não fazia parte de seus estudos.
O artista teve dúvidas relativas a sua profissão: ser geólogo ou músico. Sim, Fernando de La Rua é apaixonado por geologia, a complexa ciência que estuda a Terra, sua composição, estrutura, atributos físicos, história e os procedimentos que lhe dão forma. Formou-se como técnico de mineração e chegou a trabalhar com geologia no Tocantins. Mudou-se para São Paulo atuando nesse campo.
Foi então que resolveu aprimorar-se no ramo musical. A cada quinze dias ia à Bauru aprofundar seus conhecimentos de violão clássico com o professor Geraldo Ribeiro de Freitas. Nessa mesma época, estudava na Faculdade de Música Carlos Gomes e na Escola Municipal de Música de São Paulo.
O fato de Dona Ruth, sua mãe e brasileira - ser musicista, e Isidro seu pai – espanhol, contribuíram muito para fortalecer a maestria de Fernando.
Por indicação de um grande amigo da família, o “abuelo”, como era chamado carinhosamente, Fernando ficou sócio da Sociedade Hispano-Brasileira de Socorros Mútuos (hoje, Casa de Espanha). Foi nesse clube que, aos vinte anos de idade, teve seus primeiros contatos com o flamenco e com outras manifestações inerentes a cultura espanhola, além das quais já havia vivenciado com sua família.
“Tudo aconteceu de uma forma espontânea. Foi cativante encontrar jovens da mesma idade que eu aprofundando-se nos conhecimentos da cultura espanhola: música, teatro, folclore andaluz e flamenco. Eu vi um rapaz tocando violão e pensei: Puxa, é isso que eu quero fazer!”
Ademais, foi no clube espanhol que ele conheceu os trabalhos de Enrique Alonso, Blanca Serrano, Mário Vargas, Pedro de Jaen, Ilde Gutierrez e Enrique España. Porém o fruto mais importante dessa vivência no Clube Espanhol foi conhecer a coreógrafa Laurita Castro, com a qual iniciou sua carreira como guitarrista flamenco desenvolvendo um trabalho com Yara Castro que, posteriormente influenciou diretamente na formação de vários grupos flamencos de São Paulo. Fotos: Arquivo Pessoal
“Geração Carmen”  | | Foto: Marcus Derencius |
A Sociedade Hispano-Brasileira e o filme “Carmen” do cineasta espanhol Carlos Saura, tiveram importantes papéis no início da genial trajetória de Fernando de La Rua. Há uma cena que lhe marcou muito. A juerga na qual participavam Pepa Flores, Paco de Lucía, Antonio Solera, Manuel Rodríguez e Lorenzo Virseda, além de Antonio Gades e Cristina Hoyos. Ademais, foi no clube espanhol que ele conheceu os trabalhos de artistas que foram essenciais no cenário flamenco paulistano, como Enrique Alonso, Blanca Serrano, Mário Vargas e Enrique España. “Costumo falar que pertenço a geração “Carmen”, já que foi um filme muito significativo aqui no Brasil em determinada época. Inclusive o primeiro lance de linguagem de baile, eu extraí de Lorenzo Virseda”, através da Cia. de Arte Flamenca dirigida pelo bailaor Joaquin Ruiz que esteve em cartaz em São Paulo por um mês em 1988. Hoje, seu processo de composição de baile é automático de acordo com a linguagem corporal, emotiva e expressiva de quem está bailando. Fernando compõe conforme seu entendimento das formas e permite que sua inspiração flua no momento que está criando. “Eu não me forço a nada. Fico totalmente livre para tentar compreender o bailarino, seja para uma escobilla ou silencio. Claro que há uma certa demanda de tempo para esse entendimento, entretanto, tenho um processo de criação espontâneo desprendido de qualquer dogma”. Em uma das fases de sua vida, a qual ele mesmo chamou de “Turista Flamenco”, sem conotação pejorativa, o violonista imergiu em uma cultura que não lhe pertencia. Ele e sua esposa Yara Castro economizavam e a ida anual à Espanha era sagrada. Por isso, viveu o flamenco intensamente, o “ser gitano” e “ser andaluz” - absorvia tudo o que podia, assim como Yara em relação aos costumes e ao baile. Durante três anos, foi como estudante. Numa dessas viagens, participou do curso que o guitarrista Gerardo Nuñez organiza uma vez ao ano durante uma semana, direcionado à estrangeiros. “Foi um momento de glória estar ali durante sete dias. Para mim foi magnífico, pois aprendi muito ao conviver com uma referência no flamenco no mundo. Estudávamos quatro horas durante todas as manhãs e à noite era fiesta. Todavia “una fiesta” na qual se aprendia muito”. Comenta que ia tenso, pois ali estavam estudiosos de Jerez de la Frontera e artistas de peso de outras regiões da Espanha. Los Maestros
No Brasil, além de Laurita Castro, Fernando destaca a influência que teve do bailarino espanhol radicado em São Paulo “Pepe de Córdoba” pela grande criatividade e expressividade flamenca.
Fernando compõe com destreza e contagia os espectadores com seu talento e arte. Com a bailaora e coreógrafa Olga Pericet, foi ganhador do Prêmio de Melhor Música para Dança no “Certámen de Coreografía, Danza Española y Flamenco”, em 2004, no Teatro Albéniz, em Madri.
Fernando de La Rua também trabalhou com outros grandes artistas do flamenco e de uma forma carinhosa, menciona La China: “Ela foi para mim uma maestra, além de ser uma bailaora que influenciou gerações na Espanha. Nos primeiros cursos que ela ministrou no Brasil, tive a honra de acompanhá-la. Isso para mim soava como se fosse uma promoção. Tocar com uma pessoa de prestígio e pertencente a uma das principais escolas de flamenco do mundo, como a Amor de Dios, foi extraordinário” . Igualmente, cita Manuel Reyes por sua forma única de bailar, Rafaela Carrasco, Domingo Ortega, Inma Ortega, Manuel Liñán, Marco Flores, La truco, Montsé Cortes, Juañárez, Rafael Jimenez ‘El Falo’, Pedro Sanz, Jose Luis Montón e grupos dos tablados Las Carboneras, Casa Patas e Las Tablas.
Munido de um currículo brilhante, o artista tem trabalhado com notáveis do universo Flamenco. Já trabalha com a cantora La Shica há quatro anos e já encerrou o segundo disco com lançamento previsto em toda Espanha para Fevereiro. Flamenco com “bossa” Sobre mudar de país e enfrentar terras espanholas, Fernando de La Rua dá muito apoio a quem o deseja fazer.
Ele e sua esposa o fizeram, mas com muito planejamento e organização. “Acho imprescindível conhecer o cerne da cultura flamenca. Sei que é complicado e caro o custo de vida. Mas é uma questão de prioridade. Eu e Yara priorizamos isso”. Antes de se mudarem definitivamente, foram anos de pesquisa sobre a cultura, fizeram muitos contatos e salienta que existiu, sim, o medo de “não ser aceito”. Contudo, graças ao talento e esforço do casal, são bem sucedidos profissionalmente. E, claro, Fernando cativou o mundo com sua arte e forma única de compor.
Em 2008, Fernando e Yara criaram o projeto “Brasil Flamenco” com duas edições de verão e uma de outono no espaço cultural Artebar em Madrid. A principal finalidade deste projeto foi mostrar ao público espanhol a força que o Brasil tem conquistado no Flamenco mundial por meio de artistas brasileiros que dedicam suas vidas ao estudo, pesquisa e trabalho no flamenco de Madri. “O Brasil tem influenciado de maneira muito positiva o flamenco. Não digo isso só por mim, mas cito os trabalhos de Flavio Rodrigues, David Tavares e dos bailarinos brasileiros como Fábio Rodrigues, Stefano Domit, Pedro ‘el Gaúcho’, Thalita Sanchez, Patricia Manes, Carol Zanforlin, entre outros.”
Embora seja um brasileiro radicado na Espanha, Fernando de La Rua nunca esqueceu as raízes e a riqueza cultural de seu país.
O projeto NUANCES, por exemplo, é resultado disso.
Através de uma intensa pesquisa adentro da música flamenca, visto Fernando viver na Espanha desde 1998, e também por meio de shows regados a muita improvisação e espetáculos para montagens coreográficas, tanto no Brasil como em tablados em Madri, além de festivais de flamenco por toda a Europa, Estados Unidos, América Latina e Ásia, o toque de Fernando apresenta uma personalidade própria.
 Fernando de la Rua e Roberto Angerosa | Foto: Marcus Derencius Fernando de La Rua une solenemente nuances fincadas na cultura brasileira como o choro, bossa nova e samba ao flamenco. Todos os ritmos ocupam virtuosamente seu lugar sem perder suas raízes. O guitarrista flamenco está finalizando seu trabalho produzido por ele mesmo. Seu CD será composto por faixas de autoria própria e conta com a participação de artistas espanhóis e brasileiros. Fazem parte dessa obra-prima o contrabaixista Miguel Rodrigañez, o percussionista Pablo Martín Jones e os pianistas Pablo Suárez e Raffel Plana Honorato. No Brasil, as participações do genial percussionista Roberto Angerosa, do baterista Thiago Rabello e do baixista Bernardo Góis, entre outros.
E, para alegria dos brasileiros, ele fará uma prévia de “Nuances” no Rio de Janeiro e São Paulo.
Rio de Janeiro
19 de janeiro às 19h00 Santo Scenarium Nuances 20 reais / 10 reais estudantes de música com carteira Rua do Lavradio 36, 2º andar, Centro Antigo - RJ Classificação: 14 anos Capacidade: 90 lugares santoscenarium.blogspot.com São Paulo
21 de Janeiro às 19h00 Nuances Restaurante La Tasca Avenida Das Carinas, 592 - Indianópolis Reservas: (11) 2308.1091 - (11) 3439-4498 www.restaurantelatasca.com.br
22 de Janeiro às 21h00 Centro Cultural Rio Verde Exposição de Fotos Olhares Flamencos e Nuances por Fernando de la Rua 18 reais Rua Belmiro Braga, 119 – Vila Madalena Info: (11) 3459-5321 - (11) 9419-0405 www.centroculturalrioverde.com.br |