| Morte e vida sevilhana |
| Escrito por Luiza Medeiros |
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Edição de áudio Roberto Vargas, Locução Luiza Medeiros e Rodrigo Faraco, Violão seguiryas Gabriel Simões, Sapateado seguiryas Marilyn Mafra
É no ano de 1956 que Cabral passa a residir em Sevilha, como cônsul adjunto. Para ele, é a cidade mais encantadora da Espanha. Sua filha, Inez Cabral, lembra que a relação dele era especificamente mais intensa com o bairro de Triana. "Muitas vezes quando ele ia buscar a mim e a minha irmã na escola ele dizia, olhando para as mulheres do barrio Santa Cruz, um bairro de classe alta, que as andaluzas eram muito feias. A fixação dele era por Triana, um bairro boêmio onde viviam as gitanas andaluzas."O professor de literatura Pablo del Barco, que traduziu alguns poemas de João Cabral para o espanhol, acha que foi a arquitetura da cidade, com as ruas estreitas cobertas de paralelepípedos, que atraiu o poeta brasileiro, assim como o clima alegre e boêmio de Sevilha. Já Inez Cabral acha que a relação de seu pai com Sevilha "era tesão mesmo. Eu atribuo a tesão. Não acho que há outra palavra para isso. Ele tinha uma história especial com as ciganas dele, com a aparência física delas." O Flamenco"A música me faz dormir; o flamenco me faz acordar." Essa frase foi dita por João Cabral no documentário Recife/Sevilha em 1999, numa tentativa de explicar o porquê do tema flamenco ter tomado conta de sua obra. O poeta conhecia os termos técnicos do baile flamenco e sabia a diferença entre os diferentes estilos, ou palos, da música flamenca e a região de onde vinham. "Ele sempre gostou de mergulhar nos estudos", conta Inez. "Quando ele ficava apaixonado por alguma coisa, como ficou pelo flamenco, era mais fundo ainda o seu mergulho."
Cabral conta que enquanto morou em Sevilha conheceu um amigo próximo de Manolete, o toureiro mais conhecido da Espanha. Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, o Manolete, nasceu em Córdoba e morreu em 1947, durante uma tourada em Jaén. Levou uma cornada do touro que enfrentava e morreu momentos antes do touro. Há hoje na cidade uma estátua em homenagem a ele. O poeta adorava os movimentos do toureiro e fala com orgulho que o amigo de Manolete dizia que se ele ainda fosse vivo seria o melhor amigo de Cabral, pois nunca tinha visto na vida duas personalidades tão parecidas com as de Cabral e Manolete. "Como o baile flamenco me interessava porque era um fazer no extremo, a corrida de touro também é fazer no extremo. O sujeito se expõe à morte." A MorteCabral disse, certa vez, que se pudesse escolher um lugar para morrer, escolheria Sevilha ou o Rio de Janeiro. Morreu em um sábado, dormindo em seu apartamento no Rio de Janeiro. E por ser sábado à noite nenhum jornal conseguiu publicar a notícia de sua morte no dia seguinte. A Folha de S. Paulo conseguiu fazer circular em São Paulo um caderno especial em homenagem ao poeta, mas o resto do país ficou sem a informação. Apenas na terça-feira é que os jornais publicaram reportagens especiais sobre a morte do pernambucano. Por causa do feriado, muitos leitores de jornal só tomaram conhecimento na quarta-feira, quatro dias depois. Houvesse morrido em Sevilha, ele seria enterrado em Triana e os gitanos bailariam por taranto para lamentar a morte do maior poeta flamenco. |