“El festival de tu sueño, aquí te espera Jerez…”

Pela 19ª vez Jerez se converteu na capital mundial do flamenco. Durante os 16 dias de festival, mais de 33 mil pessoas de 39 países diferentes se dividiram entre as 163 opções de atividades voltadas para os apaixonados por essa arte.

Ainda que Jerez seja sinônimo de tradição, o festival de invierno de arte jondo, como é conhecido, passeou pelo tradicional mas também com um pé no futuro. Repassou os cantes e bailes de outrora, como fez a Compañía de Antonio Gades com Fuego, uma segunda versão de El amor brujo; e ao mesmo tempo com um flamenco,  muitas vezes transgressor e contemporâneo, também misturado e influenciado por outras músicas e outros instrumentos. Como o novo espetáculo de Israel Galván FLA.CO.MEN, no qual recorre a essência musical de uma seleção de suas montagens passadas.  Ou até o mais contemporâneo Ruben Olmo, que mais uma vez mostrou que a dança não está feita só de movimentos mas também é um canal para a narração, do qual se utilizou para contar um pouco do escritor americano Edgar Allan Poe.

El mundo sonoro de Israel Galván from Festival de Jerez Televisión on Vimeo.

Pelo Teatro Villamarta, principal palco do festival, também pudemos ver a sevilhana Manuela Carrasco com Naturaleza Gitana, Gitana Morena; a explosão de Fuensanta La Moneta em seu espetáculo Paso a Paso. Os irmãos sevilhanos Adela e Rafael Campallo que pela primeira vez criaram e bailaram uma obra juntos, Sangre; Concha Jareño que estreou El Baúl de Los Flamencos, um recorrido sobre a história do vestuário flamenco focado nos acessórios como leque, mantón e sombrero.

A Companhia de Maria Pagés nos trouxe de volta a personagem Carmen, mas dessa vez longe do ponto de vista mítico e machista. Seu novo espetáculo, Yo Carmen, falou de mulheres “reais”, através de suas experiências, emoções e sentimentos e, tratou de temas como a violência, a dependência, religião e publicidade. Como de costume em seus espetáculos, luz, cenografia e figurino  foram tratados com esmero.

O Ballet Flamenco de Andalucia comemorou 20 anos de história com a montagem Imágenes. 20 Años de Ballet Flamenco de Andalucia. A diretora Rafaela Carrasco quis, segundo suas palavras, “compor uma foto não estática, se não em constante crescimento e evolução.” Para isso foram escolhidos cinco momentos de cinco diretores que já passarem pelo Ballet, Mario Maya, José Antonio, Maria Pagés, Cristina Hoyos e Rubén Olmo. A esses momentos, Rafaela imprimiu sua visão pessoal, tornando-os únicos.

Pastora Galván nos brindou com um espetáculo daqueles em que se agradece a oportunidade de estar. Em tempos em que o flamenco busca tanta inovação e velocidade, é prazeroso ver a tradição do baile como protagonista. Além claro da presença dos exímios guitarra, cante e figurinos luminosos e tão típicos. &DENTIDADES homenageou personalidades femininas do baile sevilhano. São elas Matilde Coral, Manuela Carrasco, Milagros Mengibar, Loli Flores, Carmen Ledesma e Eugenia de los Reyes.  Durante o espetáculo Pastora se transformou nessas grandes mulheres, num processo evolutivo até chegar em sua forma intrínseca de bailar, que pudemos ver ao final da atuação por tangos e por bulerias. Estavam entre os convidados Juana la del Pipa, cantaora jerezana e José Galván, pai de Pastora e Israel Galván quem se emocionou ao ser aplaudido de pé e ovacionado por um teatro lotado.

Pastora y sus identidades from Festival de Jerez Televisión on Vimeo.

Abriram e fecharam os espetáculos do Villamarta duas mulheres, duas jerezanas, Mercedes Ruiz e María del Mar Moreno.

Mercedes Ruiz foi a encarregada de inaugurar o festival. Ella, espetáculo feito em parceria com Francisco López,  recordando sua vida como bailaora e como mulher. Com a colaboração especial de Antonio Canales e como cantaores convidados David Lagos, Londro e Rocío Márquez e na guitarra, seu marido Santiago Lara.

Con Soníos Negros, María del Mar Moreno encerrou o 19º Festival de Jerez. Um espetáculo, com uma parcela teatral, que conta um pouco da vida e obra do cantaor jerezano Manuel Torre. Sustentada pela seguiriya, a bailaora transitou entre penas e agonia através do cante de Antonio Malena. Jondo e forte, como a própria jerezana.

Além do baile

 Apesar do baile ser o grande protagonista do festival, ano após ano, o cante e a guitarra granjeiam mais espaço. Em Los Conciertos de lo Palacio que aconteceram no Alcázar de Jerez, foi possível desfrutar de shows intimistas e acústicos de cantaores que conviveram com grandes artistas como Israel Galván, Farruquito, Paco Cepero, El Torta, entre outros. Também voltado ao cante, o novo ciclo de programação “Alante y Atrás” quebrou a divisão entre cantaor solista e cantaor acompanhante de baile, propondo uma troca de papéis onde a estrela foi a voz.

Os concertos aconteceram na Sala Paúl e contaram com Miguel Ortega quem trouxe como convidada a bailaora Olga Pericet; Rocio Márquez com El Niño, seu terceiro disco dedicado ao grande cantaor Pepe Marchena – criador do palo Colombianas; o gaditano David Palomar, lançando seu disco Denominación de Origen; a sevilhana Esperanza Fernández com De lo Jondo y Verdadero, onde reivindica os estilos em desuso e homenageia Tomás Pavón, La Perla de Cádiz e Antonio Chacón, e como sua convidada, a bailaora Ana Morales; David Carpio muito bem acompanhado da guitarra de Manuel Valencia e do baile de Manuel Liñan e por fim, Tomás de Perrate que convidou a bailaora Belén Maya.

Utrera, qué tiene Utrera…. from Festival de Jerez Televisión on Vimeo.

Ainda que na maioria dos espetáculos de baile oferecidos pelo festival, a guitarra ganhou seu merecido protagonismo em momentos importantes. Sob a direção de Javier Latorre, o jerezano Paco Cepero demonstrou com mestria sua trajetória artística de mais de 50 anos. Veio acompanhado de mais dois guitarristas, Miguel Salado e Paco León. Também lhe acompanharam o violino de Sophia Quarenghi, Chicharito na percussão e Rancapino Chico como cantaor convidado. O show no Teatro Villamarta, intercalou cenas de baile coreografados por Javier Latorre e interpretadas por Carmen Herrera, Ana Latorre e Álvaro Paños.

Para ele, O Grande:  Un año sin Paco

 Como não poderia ser diferente, a 19ª edição do Festival de Jerez prestou homenagem ao maior músico flamenco dos últimos tempos, que faleceu precisamente na edição do ano passado, o grande Paco de Lucía. No dia 26 de fevereiro de 2014 o luto tomou conta do festival. Tomatito que tocaria naquela noite, cancelou o concerto que faria no teatro Villamarta.

“Un año sin Paco” – Gerardo Núñez, Alfredo Lagos, Juan Diego, José Quevedo, Santiago Lara e Manuel Valencia

Esse ano, a edição homenageou o grande mestre em diversas performances. Um dos momentos marcantes e emocionantes,   foi  em Un año sin Paco: Seis guitarras. Seis cordas. Seis personalidades. Gerardo Núñez, Alfredo Lago, Juan Diego, José Quevedo, Santiago Lara e Manuel Valencia. Seis formas extraordinárias de honrar o grande maestro de Algeciras. Morre Paco mas a guitarra segue viva e austeramente representada.

Para aprender…

A área formativa é sem dúvida, um dos principais atrativos do festival. Este ano chegaram a Jerez mais de mil pessoas afim aprender nos diversos cursos, workshops e oficinas relacionadas a arte flamenca, se aperfeiçoar ou simplesmente estar perto de seus ídolos. Além de coreografias e técnicas de baile, foram oferecidos cursos de compás, palmas e de história do baile flamenco com o professor Juan Vergillos.

… E viver

 O flamenco já se transformou em arte universal e sem fronteiras, visto que esses grandes artistas transitam pelo mundo com seus espetáculos e cursos. No entanto, o Festival de Jerez nos convida a uma experiência única: beber direto da fonte e vivenciar o flamenco de forma intensa.

Sem dúvida levamos na memória muitos momentos e amizades vividos e cultivados ali. É impossível, eu diria, sair imune ao festival; são milhares de pessoas louvando e vivendo por uma mesma arte com muito amor, respeito e paixão. Ansiosos  agora pela 20ª edição!

 

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