XVIII Festival de Jerez incentiva a participação de brasileiros

Em sua 18ª edição, o Festival de Jerez, uma das cidades berço do flamenco voltou a receber visitantes de quase 40 países diferentes. E nós brasileiros, fomos o 4º país com o maior número de participantes. Inclusive por meio de um edital, como nos conta a bailaora Mariana Abreu:

“Tudo começou com o desejo de seguir os trabalhos do grupo de profissionais que acompanhou Antonio Canales no Brasil no ano passado. O Edital de Intercâmbio e Difusão Cultural se apresentou como uma ajuda para concretizar o sonho de dar este seguimento na Espanha, no Festival de Jerez e na escola Amor de Dios. O grupo foi se configurando com outros integrantes, até chegarmos nos nove que fizeram a viagem: os bailaores Ale Kalaf, Carlinhos Rowlands, Carol Robatini, Cintia Soares, Jonas Ruedas, Liége Honda, Mariana Abreu, Miriam Galeano e Ulisses Ruedas. Foi muito bacana pois cada um se encarregou de um aspecto da viagem. Agora vamos seguir trocando entre a gente as experiências e conhecimentos adquiridos, além de com alunos e público em geral nas palestras e apresentações de contrapartida.”

Grupo de brasileiros com Remedios Amaya no Festival de Jerez 2014

Grupo de brasileiros com Remedios Amaya no Festival de Jerez 2014
Foto: Arquivo pessoal de Carol Robatini

A participação do Brasil não ficou só na plateia ou nas salas de aulas. Para nosso orgulho, dois guitarristas dividiram o palco com grandes nomes do flamenco:  Flavio Rodriguez e Fernando de La Rua brilharam no maior evento de flamenco do mundo. A seguir, o próprio Fernando nos conta um pouco dessa experiência:

“A primeira vez que estive foi em 2001 com a Rafaela Carrasco, junto com o bailaor Manuel Reyes e a bailaora Belen Maya! Depois fui mais seis vezes. Com a Companhia da Rafaela Carrasco, La Truco, Manuel Liñan e Marco Flores. Este ano de 2014 com Domingo Ortega (“El Baile Canta”) e Sara Calero (“El Mirar de la Maja”). Pra mim sempre é um super acontecimento e mais uma conquista profissional por ser brasileiro e ter um pequeno “lugar ao Sol”  aqui no contexto flamenco da Espanha. Me sinto orgulhoso por ser de onde venho: Brasil, Itapeva, São Paulo. Compartilhar o palco com pessoas que são referências dessa arte aqui e no mundo não tem preço, além de ser respeitado como profissional aqui. O Festival de Jerez atualmente é o acontecimento mais importante de Flamenco no mundo, junto com a Bienal de Sevilla que eu também tive o prazer de estar por duas vezes. Enfim, penso que sempre é gratificante estar no festival; é o resultado dos anos que me dediquei a esta arte, desde os meus princípios em São Paulo até os dias de hoje aqui em Madrid!”

 

A percepção de Cláudia Maria Penteado sobre o Festival de Jerez 2014

Foram programados 43 cursos e oficinas, além de algumas atividades paralelas. É uma grande oportunidade de fazer aula com bailaores como Eva Yerbabuena, Olga Pericet, Marco Flores, Manuel Liñan, Leonor Leal, Rafaela Carrasco, Mercedes Ruiz, entre outros.

A  programação de espetáculos do Festival contou com 42 atuações. Baile, cante e toque se dividiram em diferentes palcos durante as duas semanas. A parte boa de acontecer só uma vez ao ano, é que temos tempo pra refletir e absorver tanta coisa interessante, e porque não dizer intrigante.

Eva Yerbabuena apresentou “AY!”. Uma proposta intimista e minimalista onde seus monólogos dramáticos de baile foram acompanhados pela guitarra de Paco Jarana, violino, percursão e três vozes masculinas. Sua genialidade é indiscutível, enquanto seu rosto e corpo expressam as mais profundas emoções, seus pés sapateiam de uma maneira extremamente limpa e precisa. Mas a subjetividade e introspecção de um espetáculo escuro e profundo, por algumas vezes não foi entendida por toda a plateia.

Um dos momentos mais bonitos foi a Gala Flamenca que reuniu Antonio Canales, Jesús Carmona, Karime Amaya e Carlos Rodríguez no mesmo palco. Sem a pretensão de contar qualquer história, a ideia foi simplesmente mostrar o flamenco que cada um carrega. E a união desses grandes artistas somado ao carisma de Canales, emocionou do princípio ao fim.

Gala Flamenca
Foto: Divulgação

A atuação do jovem Alberto Sellés também merece um grande destaque. No espetáculo “Las campanas del olvído”, o bailaor de San Fernando resgatou o cante e toque gaditano de forma impecável e espontânea. Merecedor do prêmio de artista revelação que ganhou no Festival de Jerez 2014 com esse espetáculo, Alberto Sellés já ganhou outros diversos prêmios e hoje faz parte do corpo de baile do Ballet Flamenco de Andalucia, com direção de Rafaela Carrasco.

“Laberintica” de Marco Flores foi sem dúvida um dos espetáculos mais marcantes desse Festival. Marco nos faz experimentar todas as sensações de estar em um labirinto, com a ajuda de quatro bailaores, três cantaoras, duas guitarras, sem contar a iluminação e figurinos de tirar o fôlego. Um espetáculo denso, forte e bem ensaiado onde Marco comprova mais uma vez o grande artista que é – bailaor, coreográfo e diretor.

É impossível falar dessa edição do festival sem mencionar Manuel Liñan bailando de bata de cola e mantón. O teatro veio abaixo nas suas duas aparições. Primeira vez nos surpreendeu ao fazer uma participação mais que especial no espetáculo da Belén Maya e na segunda no seu próprio. Na minha humilde opinião, atualmente ninguém move uma bata de cola com mais graça e desenvoltura do que ele!

Não sabe-se ao certo o real motivo, se é a crise espanhola ou um momento que vive o flamenco, mas o que eu vi na grande maioria das propostas, foram espetáculos onde predominaram o escuro, o negro e podemos dizer até um certo pesar ou tristeza. Talvez um movimento geral de introspecção ou questionamentos por parte dos artistas. Com a dificuldade em conseguir ajuda financeira do governo ou de empresas privadas para suas produções, os artistas precisam se financiar e com isso se sentem mais “livres” e automaticamente mais criativos, o que pode ser um lado positivo, pois com menos recursos para cenários e grandes produções, é preciso sacar muito mais do baile, cante e toque para dizer a mesma coisa. Os grandes cenários foram substituídos por projetos de iluminação e um elemento bastante usado foi a cadeira, em vários momentos e coreografias.

O flamenco é uma constante evolução, há quem fale e defenda o “purismo”, mas desde sempre, na história desta arte, o flamenco vem se alimentando das diferentes tendências. E acredito que o que estamos vendo agora, no baile, é a ideia do contemporâneo e do conceitual. Este é um momento importante de transição e vale a pena mergulharmos de cabeça, já que somos privilegiados por poder acompanhar esse momento importante para o flamenco.

O Festival de Jerez se reinventa a cada edição e oferece um leque de grandes atividades para qualquer tipo de público.  A magia está em criar um pequeno mundo onde é possível mergulhar nessa atmosfera flamenca e viver esses dias de forma tão intensa e livre. Vale a pena vivê-lo ao menos uma vez na vida. A próxima edição já tem data, acontecerá do dia 21 de fevereiro até  07 de março de 2015. As inscrições já estão abertas. Maiores informações, entrem no site no festival:  www.jerez.es

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