A maestra Vera Alejandra fala sobre a XVIII edição do Festival de Jerez

Estar em Jerez durante a primeira semana do festival foi incrível! É emocionante ver uma cidade lotada com pessoas que amam o flamenco e vão para lá afim de aprofundar seus conhecimentos e beber direto da fonte, como eu fui.
Fiquei muito extasiada de ter a oportunidade de diariamente assistir  espetáculos de altíssimo nível intrínsecos ao teatro Villa Marta durante o Festival de Jerez.

Cada espetáculo é o retrato do artista flamenco que o dirige e o concebe;  é o retrato que  esse artista acredita e preconiza como sua arte, seu espírito, sua visão e sua concepção de vida. Isso foi o que mais me emocionou a cada dia, a cada apresentação. Comprovar que no flamenco cada um carrega sua flamencura, cada um planeia e gera uma tela na qual expõe suas cores flamencas. E o que cada um “aporta”, palavra muito usada pelos flamencos espanhóis,  que significa trazer no sentido de agregar, acrescentar. Isso é o lado generoso do flamenco, isso é ao meu ver, o que mantém o flamenco vivo. Muito vivo!

Não sou crítica e nem pretendo ser, apenas gostaria de deixar aqui minhas impressões, sensações de quem ama o flamenco e o acompanha com muito respeito e paixão há muitos anos.

Bem, na abertura do festival tivemos Fatum, de Javier Latorre, como remontagem deste balé, baseado na obra de Verdi La forza del Destino. Espetáculo lindo, mágico e agregador! As coreografias de Javier Latorre são uma aula, uma aula de teatralidade flamenca, uma aula de flamencura a serviço de uma ideia, uma aula de musicalidade que se alavanca de todos os poros. Uma aula totalmente digerida e aproveitada ao máximo por todos os bailarinos que tem o privilegio de executar passos deste grande coreógrafo.

Veja mais:Festival de Jerez Televisión

O espetáculo contou com um elenco incrível e o bailarino Christian Lozano  foi um espetáculo a parte. Eu igualmente adorei a participação do bailaor japonês Shoji Kojima na direção artística e na interpretação do “o destino”, mesclando flamenco e Butoh. E a música de Chicuelo simplesmente maravilhosa. Eu sou fã do Chicuelo e também sinto um orgulho muito grande de ver nosso guitarrista brasileiro, Flavio Rodrigues nesta montagem.

No dia seguinte a grande artista Eva Yerbabuena. Nas apresentações de Eva,  os cantaores também são sempre um espetáculo a parte, e acredito que isso aconteça por conta da relação que ela estabelece com o cante. E que cante! Quase morri: Enrique El Extremeño, José Valencia e Jeromo Segura. Não que todos os outros bailaores não o façam. Mas Eva “se cola”  com o cante de um jeito que não sei explicar, mas é matador!

Eva dançou tangos incríveis, entretanto, primeiramente nos fez assistir a seus “devaneios artísticos” que não necessariamente são flamencos, e quando você acha que vai ficar com raiva dela (risos), ela vem e te arrebata com “unos tangos que te mueres” e ainda conclui com uma seguiriya de mantón de doer na alma. Ela é flamenca, flamenca, flamenca, mesmo que as vezes “ela não queira”.

No terceiro dia, fui à Gala Flamenca com direção de Ángel Rojas do Nuevo Ballet Español, com elenco formado bailaores incríveis, cada um com matiz próprio: Carlos Rodríguez também pertencente ao Nuevo Ballet Español, Karime Amaya, Jesús Carmona quem eu não tinha visto ao vivo antes e amei: bailaor incrível, completíssimo, tremendo. E o nosso grande Antonio Canales.

Todos dançaram extraordinariamente com uma técnica impressionante, arremates, velocidade e limpeza de doer;  mas quando Canales entrou em cena com apenas uma braçada junto a um golpe definitivo, “ colocou todos no bolso”. Sem velocidade, sem virtuosismos, sem tecnicidades, apenas com uma propriedade flamenca que penetra por  todo seu ser em dois segundos.

Quarto dia : Los Invitados, de Belén Maya. Novamente um cante de morrer nas vozes de José Valencia, Tomás de Perrate, José Anillo e Gema Caballero.  Espetáculo lindíssimo, aonde Belén luziu e nos deliciou com várias coreografias de bata de cola; acho que foram umas 3 ou 4 batas e a gênia conseguiu dar nuances diferentes a cada coregrafia em que utilizou bata.

Veja mais: Festival de Jerez Televisión.

Ela criou um espetáculo delicado e ao mesmo tempo forte, poético, aproveitando ao  máximo cada convidado. Ao bailar com Manuel Liñan, o teatro veio abaixo, e ao Carmen Linares aparecer e soltar a voz,  eu chorei, compartilhando a mesma emoção outras tantas pessoas que lá estavam…

Fique de olho na programação 2015: www.jerez.es

Publicar comentário