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Alegria Cigana

Espetáculo Toro Negro une flamenco à literatura de Clarice Lispector

por Andressa Rocha

Miguel Alonso e Carolina Zanforlin | Foto: Eduardo Sardinha

“ Mas há também o canto impaciente que a voz apenas não exprime: então um sapateado nervoso e firme o entrecorta, o olé que o interrompe a cada instante não é mais amém, é incitamento, é touro negro”.

É a partir da crônica “Espanha” de Clarice Lispector que a atriz, bailarina e professora de flamenco Carolina Zanforlin congrega sua alma flamenca e as vivências no cerne da arte, em seu primeiro espetáculo que estreia na próxima quinta-feira em São Paulo: Toro Negro. É  buscada a intersecção entre a cultura espanhola e a literatura brasileira por meio do flamenco, típico da Andaluzia, apresentado da forma mais pura  alcançada, aos escritos de Lispector quem   transpôs a beleza e a força da dança para seus poemas, crônicas e contos.

Este diálogo acontece através dos elementos essenciais da arte flamenca: cante, guitarra e baile. Além da indumentária e instrumentos musicais respectivos, do texto e de recursos multimídia.

O baldrame de Toro Negro evade-se da literalidade e da didática da obra de Clarice. A história se inspira, mas não é exatamente o texto. O público é quem define quem são e o que querem os personagens. Carolina no processo coreográfico inspirou-se sobretudo no amor, na força, na rivalidade entre os sexos. Ela enfatiza a dualidade homem e mulher descrita pela escritora, além da busca interior do feminino e do masculino, o que deriva na procura de nossa outra metade para assim sermos completos. E questiona: Se nossa outra metade morrer, seremos capazes de seguir vivos?

O espetáculo divide-se em três momentos. O primeiro é o Viver, qual as coreografias exibem essa dualidade e ambas personalidades, percorrendo por ritmos densos e alegres. O segundo é o Amar, aonde jazem ritmos suaves com movimentações leves e românticas. O terceiro e último momento é o Morrer, em qual a morte é apresentada e prosseguida pela dor, despontado por ritmos densos e passagens dramáticas.

Clarice Lispector constantemente testa o limite entre as artes. Toro Negro traz a autora para o tablado, pois concebe que a dança e a literatura dialogam e se influenciam, e sob essa influencia as duas artes são capazes de criar sensações análogas. Carolina confessa que assim que leu o texto teve vontade de passar aquelas palavras para seu corpo. Sentiu magia e verdade em cada trecho e destaca que ficou impressionada com a quantidade de sensações que “Espanha” lhe proporcionou.

A diretora Débora Dubois convidou Gilberto Martins, professor de literatura brasileira, especialista e doutor em Clarice Lispector, quem foi peça fundamental para trazer a essência da escritora para o palco. “Lemos Espanha durante uma tarde inteira com o elenco. Em alguns momentos, a crônica, é quase uma descrição de uma coreografia. Sobretudo, o que vale é a impressão que ficou na espectadora daquele impacto de vivenciar um espetáculo de dança flamenca que a inspirou a criar sua obra. No processo criativo de Toro Negro, tentamos entender e transpor para a coreografia algumas imagens e metáforas, agora traduzidas para o flamenco através da dança, da música, da iluminação e criação do cenário ”.

Clarice viu um espetáculo de flamenco e escreveu a crônica. A solista Carolina Zanforlin, o bailarino Miguel Alonso e equipe leram a crônica que os inspiram a criar um espetáculo de dança. O diálogo está completo com travessão, sentença e ponto final.

“ Ler  e não visualizar aquelas palavras é impossível, já que seus versos são como um baile gitano andaluz: com modulações, ritmo, idas e vindas. Esse texto foi feito para ser dançado pois não apenas fala de flamenco, ele é flamenco na sua cadência, na escolha de cada palavra e principalmente na verdade de suas emoções,” diz a solista.

“Outras danças são a nostalgia dessa coragem. Esta dança é a coragem. Outras danças são alegres. A alegria desta é séria. Ou a alegria é dispensada. É o triunfo mortal de viver o que importa.”

Carolina Zanforlin | Foto: Eduardo Sardinha

“Espanha” é flamenco. Essa fruto deu um sentido diferente à vida de Carolina. “Cheguei a dizer que antes de qualquer pessoa aprender a arte, seria interessante ler o texto como uma introdução à complexidade desta profunda dança.”
O flamenco vai além da dança. É um movimento que arraigou parte da história e de culturas de vários povos, como árabes, berberes, judeus, ciganos indianos, entre outros. Transformou a dor, a alegria, as lutas, a resiliência e outros fatores abstrusos que envolve o assentamento do estrangeiro em uma nova terra, nesse caso, a Andaluzia, em arte: cante, guitarra y baile. Arte que tornou –se um estilo de vida para muitos e dissemina-se atualmente em diversas partes do planeta.
O bailarino e professor Miguel Alonso traz toda essa carga ao dançar, na intensidade que executa os movimentos, na forma de olhar, em seu caráter. Principalmente, por sua maneira “flamenca” de viver.
Um homem que estabeleceu-se em terras brasileiras deixando sua pátria, Cuba, em busca de novos horizontes junto com sua alma gêmea. Hoje viúvo, continua a viver e lutar para criar seu filho, ensinar um flamenco genuíno, bailar e romper fronteiras para difundir sua arte com verdade.

Miguel Alonso | Foto: Eduardo Sardinha

Miguel através de seu baile trouxe literalmente corpo e imagem à Toro Negro. “Na minha vida, sou muito Toro Negro. Enfrento e vivo a vida de uma forma muito forte. E para mim, flamenco é viver um dia após o outro. E vivo cada um, como se fosse o último.”

Sobre o processo criativo musical, essencialmente é alicerçado pela coletividade e pela vivencia pessoal de cada um dos músicos. Não há um diretor. Mesmo com o respeito ao cerne da arte, existe a fusão de linguagens musicais já que estamos falando de um espetáculo de flamenco no Brasil com artistas brasileiros donos de mentes distintas unidas por uma causa incomum. Conrado Gmeiner (guitarra), Davi Caldeira (guitarra), Letícia Malvares (flauta), Luciano Khatib (percussão) e Fernando de Marilia (cantor) trazem a tona um repertório próprio de quem vive flamenco.

“Reunimos os elementos essenciais de um flamenco puro e embalamos tudo  com nossa brasilidade para contar a história que a gente quer. Estamos lidando com algo que é produto de uma fusão de culturas, religiões, raças. E isso continua. Com a universalização do flamenco, aonde quer que ele vá, igualmente absorve elementos de onde está e contribui reciprocamente com o mundo contemporâneo. O flamenco é um sentimento e um guia no ouvir, no falar, no sentir e de olhar as coisas. O publico terá acesso às nossas impressões de frente à vida, a qual nos alimenta, nos ensina, nos tira e nos dá”, diz o cantaor Fernando de Marilia.

“A dançarina percorrerá a aura do próprio corpo com as mãos em ventarola: assim ela se imanta, assim ela se prepara para tornar-se tocável e intocável.”

Entrevista com Carolina Zanforlin
O que significa flamenco e como o expressa? Quem é Carolina Zanforlin no panorama brasileiro?
Flamenco é minha vida, meu estilo de vida! Cada palo para uma ocasião. Essa paixão começou quando eu tinha 11 anos, comecei dar aulas aos 15 e tudo continua crescendo em meu coração. Essa paixão vai aumentando com o tempo e sua vontade de se aprofundar nessa arte vai acendendo com ela.
Isso se tornou não apenas minha profissão, mas me levou a conhecer lugares e pessoas muito importantes, viver experiências incríveis e crescer muito como mulher. Nos três anos que morei na Espanha, enfrentei e passei por situações difíceis, e mesmo sabia que tudo aquilo valia a pena! Cada vez que volto pra lá, sinto que retorno à minha casa, sinto que parte de mim ainda vive lá e viverá para sempre. É muito difícil cortar os laços com o flamenco e o que ele nos dá. Com certeza terei que voltar constantemente para aprimorar meu baile , para rever lugares e pessoas , e continuar a me dedicar profundamente aos estudos desta arte.

Sou uma pessoa que quer acima de tudo impulsionar o flamenco no Brasil e lutar para que ele ganhe mais espaço e fique no lugar merecido.

Isso há anos é buscado por todos que vivem desta arte. Estamos passando por um momento especial de transformação, reconhecimento, evolução, de expansão para os teatros e para o circuito cultural dentro do país. Além do reconhecimento e respeito na própria Espanha: um orgulho para todos nós! É uma honra para mim fazer parte desta história.

Conte um pouco mais sobre o processo criativo e  sobre a escolha do  casting geral.
Nessa aventura embarcaram muitas pessoas importantes e fundamentais. Já trabalhei com todos eles e alguns conheço alguns há mais de dez anos, o que ajuda muito em todo processo. Os ensaios foram emocionantes, pois todas as pessoas, sem exceção contribuíram com a alma e criatividade.

A criação de Toro Negro teve muitas etapas, mas com certeza a primeira delas foi a leitura do texto da Clarice. Conheci o texto quando estava ainda na faculdade de Comunicação e Artes do Corpo (PUC-SP) e desde então senti a necessidade de formatar isso em dança. Depois de morar na Espanha e me aprofundar na minha pesquisa da dança flamenca , voltei para o Brasil e decidi que já era hora daquelas palavras terem corpo, música e imagens.

Foi então que escolhi as pessoas para fazer parte de processo e o dividi em três partes: Imersão e entendimento do texto através da consultoria com o professor de literatura Gilberto Martins, criação musical, criação coreográfica com a poio da bailaora espanhola La Truco e por fim, a direção de cena de Debora Dubois.
Os músicos com toda sensibilidade foram criando partituras tão complexas e intensas quanto as palavras de Clarice.
Dar as aulas também é fundamental para mim, pois sou uma pessoa de espirito coletivo. Foi criando passos para meus alunos que muitos de Toro Negro foram surgindo!

Quais são os trâmites para elaborar e profissionalizar um espetáculo? Quais as dicas para os envolvidos que buscam disseminar o flamenco de forma séria no Brasil?

Bom, existem inúmeras dificuldades. Posso dizer que eu tive menos, pois contratei uma pessoa para ajudar a escrever o projeto. A burocracia só para se inscrever e ter a aprovação do cadastro já é um caos, mas o pior nem é isso: é a demora para obter uma resposta da secretaria, além de ter datas específicas para a inscrição. Se você perder essas datas, demora cerca de um ano para abrir de novo.

É muito importante conferir mil vezes a papelada para não perder tudo por algum deslize. Depois de alguns meses de espera, você terá aprovação ou reprovação. Aí sim pode enviar o projeto real, qual também demora mais alguns meses (quase um ano) para ser analisado. Fica a deriva mais um pouco.

O trabalho não termina por ai, depois de feito a inscrição, escrito e mandado toda a documentação, projeto, etc., aí você finalmente recebe a resposta.

No meu caso foi aprovado de primeira, mas conheço casos que foram recusados e então tiveram que refaze tudo e passar pela espera interminável de análise novamente. Tive sorte, ou fui esperta de contratar alguém para me ajudar.

Depois vem a fase de captação, outra novela. Nessa sim posso dizer que tive sorte, pois consegui captar em 6 meses, já que há ocorrências que passam por todo processo e nunca conseguem captação, além de são esquecidos mesmo sendo aprovados pela lei! Uma pena, já que muitas empresas visam muito mais se há pessoas famosas no elenco, do que o projeto em si.

Hoje em dia muitas informações aqui descritas mudaram e sei que existem facilidades de apoio. Este é apenas um depoimento de como aconteceu para mim. E recomendo mesmo a ajuda de um profissional da área.

Acredito na importância dessas leis, e vejo que são convenientes o à artistas brasileiros de diferentes áreas. Temos muito o que evoluir para que a lei funcione como deveria. Mas fico feliz de termos isso no Brasil, já que vivi na Espanha aonde não existe nada parecido. Ou seja, lá os artistas continuam se virando como podem para viver de arte em tempos de crise.

FICHA TÉCNICA
Direção Geral: Débora Dubois. Coreografia: La Truco. Solista: Carolina Zanforlin. Bailarino: Miguel Alonso. Trilha Sonora original e  Músicos: Conrado Gmeiner (guitarra), Davi Caldeira (guitarra), Letícia Malvares (flauta), Luciano Khatib (percussão) e Fernando de Marilia (cantor). Concepção Cenográfica: Débora Dubois.Iluminação: Aline Santini. Figurino: Alba Marin.

SERVIÇOS

Temporada: de 4 de abril até 09 de maio no Teatro Itália. Às quartas e quintas, às 21h. Endereço: Av. Ipiranga, 344 – República, São Paulo, CEP: 01046-010.
Duração: 60 minutos.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) e R$15,00 (meia). Bilheteria: de terça a domingo – à partir das 15:00 horas Telefone: 3255-1979 – Capacidade: 276 lugares.
Vendas on-line – www.compreingressos.com.
Classificação Recomendada: A partir de 12 anos.

2 comentários neste postComente
  1. Vi a Carolina Zanforlin uma única vez, foi em um dia de aula com a Truco, agora no começo do ano, mas foi o suficiente para ver quanto ela é talentosa e generosa em ensinar. Vou assistir, pois fico imaginando como será maravilhoso.

  2. Trabalho maravilhoso e inspirador. Parabéns ao Profº Miguel da EFYC e à sua companheira de espetáculo. Vou assistí-los.

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