El Encierro de Anna Frank, novo espetáculo de María Juncal

Noite de pré-estréia, Madrid, setembro de 2012. Sentada na plateia, estou ansiosa pelo o que está por vir. Quando uma luz forte me convoca a olhar para trás, avisto a bailaora María Juncal entrando com uma mala na mão, a caminho de sua jornada no palco, uma encenação rara e corajosa que mistura teatro e flamenco.

Em cena, ela é Anne Frank, a adolescente judia que dos 13 aos 15 anos foi trancada com sua família e com outras quatro pessoas num esconderijo, aos fundos de uma casa em Amsterdã durante a Segunda Guerra Mundial.

Da mala saem suas histórias e personagens. Roupas marcadas pela Estrela de Davi, o estigma da vida que vai ser contada. Vestidos e casacos vão se corporificando e bailam com a garota, que ora se esconde por trás da roupa do homem forte, ora se aconchega sob um manto feminino.

O espetáculo “El Encierro de Anna Frank” é uma experiência única e tocante para quem assiste.

Para contar a história e a dor da menina que nunca chegou a ser mulher, o corpo de María Juncal vai ao limite, se esgota, se entrega.

No tempo que passou escondida, Anne Frank cultivou um diário onde escrevia suas frustrações, desejos, brigas e amores. As folhas de papel que anos depois se tornariam um dos maiores relatos sobre o Holocausto (o livro “O Diário de Anne Frank”) vão se mostrando suas fortes companheiras, um ponto de apoio para Anne, uma interlocução que a permitiu manter relativamente a razão em tempos de loucura.

Juncal vai aos extremos: se joga, executa sequências inteiras com os punhos fechados, sapateia ao som do discurso de Hitler, – uma das cenas mais fortes da encenação, – baila por Farruca, ereta e duvidosa como um jovem nazista do Terceiro Reich, em giros e caídas de perfeita imperfeição.

Seus movimentos passam pela leveza da menina, pela força do policial, pelo desespero e medo de todos da casa. Usando seu corpo, disponível e alerta, junto ao surpreendente som feito por músicos que cantam sua dor e choram sua angústia, Juncal se comunica e provoca do início ao fim seu interlocutor, que vai se retorcendo em sua cadeira.

Assim como Hitler moveu a enorme massa de manobra com suas palavras, a artista também envolve, contorce e desatina seu público; como se também entoasse um forte discurso, mas transvestido pelo compás da seguyrilla.

Ao fim, a bailaora exausta e transformada, sai por onde entrou. A menina caminha para seu destino, e nós vamos junto, mais uma vez forçados a olhar para trás. E dessa vez, ao me virar, o que vejo é um público emocionado, quase cansado, como quem tivesse executado todas aquelas carretilhas, todas aquelas piruetas fora do eixo, como quem tivesse perdido sua meninice ali, mais uma vez.

María Juncal oferece seu espetáculo para os inocentes, e a plateia sai quieta, como quem tem a própria inocência abalada.

* “El Encierro de Anna Frank” está em cartaz em Madrid e não tem previsão (ainda!) de vir para o Brasil.

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