A coreologia flamenca

Existe o mito de que as aulas de Cylla Alonso são muito difíceis. A dificuldade, porém, não está na velocidade de um sapateado, mas em aprender, sobretudo, a Pensar (sim, com “P” maiúsculo) o flamenco. Não limitar-se a repetir passos e sequências coreográficas, mas entender de fato o que se aprende em aula. Isso porque, antes de ser uma talentosíssima bailaora, Cylla Alonso é uma pensadora e pesquisadora do flamenco.

De formação praticamente autodidata, ela vive e estuda na Espanha desde 2007 e está  no Brasil para ministrar um curso inédito: Coreologia flamenca, em São Paulo. O curso não poderia chegar em melhor hora, justamente quando alguns flamencos brasileiros começam a discutir e questionar as formas de aprendizado, de ensino e os próprios objetivos e caminhos do flamenco no país.

Para quem não está familiarizado com os termos da dança, a palavra coreologia pode parecer um palavrão. Mas já foi explorada e definida por estudiosos, dançarinos e teóricos da dança, como Rudolf Laban (1879 – 1958). Foi ele, talvez, quem melhor a definiu: “coreologia é a lógica ou ciência da dança, a qual poderia ser entendida puramente como um estudo geométrico, mas na realidade é muito mais que isso. Coreologia é uma espécie de gramática e sintaxe da linguagem do movimento que trata não só das formas externas do movimento, mas também do seu conteúdo mental e emocional. Isto é baseado na crença que movimento e emoção, forma e conteúdo, corpo e mente são uma unidade inseparável”.

Para explicar os fundamentos do curso e o que levaram Cylla a desenvolvê-lo, acompanhe esta entrevista, gentilmente concedida ao FB em meio às malas e correrias na véspera de sua viagem para o Brasil.

“Não quero que levem passos para casa, mas conhecimento e ferramentas para continuar estudando no se refere à dimensão da linguagem do flamenco”

Por que coreologia voltada para o flamenco?

O conceito da coreologia como disciplina da dança edifica a proposta de estudo, análise, decodificação e escritura da dança, mas o método de coreologia flamenca em si foi desenvolvido especificamente para o a linguagem flamenca. A metodologia é um prisma diferente sobre a dança flamenca que não está baseado na cópia de um som, passo ou coreografia. Considera que um único movimento flamenco tem compasso, percussão, velocidade, matiz, linha, intensidade, microestrutura que faz parte de uma estrutura geral, intervenção de elementos (guitarra, cante, palmas), comunicação com os elementos, etc. A coreologia flamenca permite o desenvolvimento de cada conceito e de cada ferramenta, que elaborados metodologicamente entre si, criam uma consciência conjunta sobre os principais fatores envolvidos na produção de um movimento flamenco.

De que forma foi desenvolvido o curso de coreologia para flamenco ?

Tudo começou comigo. Eu queria produzir certos movimentos e certos sons, queria que meu corpo atendesse às minhas necessidades, queria saber como montar e como improvisar, queria saber como fazer as palmas para baile, queria saber o que meu corpo tinha que comunicar para os músicos e como funcionava o diálogo com eles. Enfim, eu queria um monte de coisas que ninguém podia me explicar a partir de um critério. Assim, o estudo que serviu de base para o que hoje é a coreologia flamenca começou no Brasil nos anos 90 através da minha própria inquietude e depois se desenvolveu como método a partir das inquietudes e necessidades dos meus alunos. Para falar a verdade, o raciocínio na dança, como disciplina, nem passava pela minha cabeça nessa época, mas foi o caminho que percorri por necessidade. Dessa necessidade vieram anos de estudo de flamenco, anos de estudo sobre a didática flamenca e anos de desenvolvimento do método que levou à coreologia flamenca.

Quais as necessidades que você identificou no flamenco feito no Brasil que levaram a criar este curso específico?

A construção da coreologia flamenca nasceu de um processo de estudo (com teoria e prática e escrita) para compreender o que compõe a dança flamenca como um todo. No Brasil, não fazemos três aulas diferentes todos os dias, nem aprendemos cinco coreografias completas de um mesmo palo em um mesmo ano. Por isso, o conhecimento básico por comparação se torna muito difícil. É certo que sempre há uma minoria que consegue aprender bem copiando, mas muitas das observações sobre as “dificuldades flamencas” me fizeram insistir no desenvolvimento deste método.
As dificuldades técnicas propriamente ditas, das memórias sonora e mecânica agregadas, a necessidade de gravadores de áudio e vídeo, a dificuldade de compor movimentos com braços, mãos, pés e compasso, dificuldade de entender “micro” e “macro” estruturas, dificuldades de interagir com os músicos, etc. Também, via que um professor ensinava o passo X e que os alunos (a maioria) aprendiam ou reproduziam outra coisa, sem dar-se conta que o transformam em passo Y. Via também as “colchas de retalho” (coreografias compostas de passos aleatórios que acabam sendo “costurados” sem nenhum sentido ou critério).
Estudando na Espanha, percebi que também somente uma minoria acompanhava plenamente as aulas e entendia o que estava sendo ensinado. Muitos alunos saiam se lamentando, alguns criticando o professor e outros simplesmente desmotivados porque não acompanhavam as aulas. Comecei a perceber que certas dificuldades de aprendizado não estavam restritas aos brasileiros, nem a nenhuma cultura específica, eram dificuldades do próprio flamenco, desde seu desenvolvimento técnico à compreensão da linguagem. Depois, já trabalhando em Madri, essa percepção se  reafirmou, pois a falta de certos conceitos e de certas ferramentas implica em uma prática flamenca certamente executável com esforço, mas que notoriamente se perde neste contexto.

Será passado o mesmo conteúdo tanto para profissionais como amadores?

O pensamento coreológico é um prisma novo para amadores e profissionais, por isso o curso é pensado para todo mundo. A diferença principal de níveis vai aparecer na velocidade para absorver as informações e a quantidade de conteúdo. É um processo individual no qual cada um entrará em um mundo próprio, trabalhando em seu  desenvolvimento e entendimento. O melhor do método é que a construção é igual para todos, mas se são fornecidas 20 informações sobre o movimento, cada um vai absorver uma quantidade, conforme suas próprias necessidades de desenvolvimento. É importante ressaltar que o curso intensivo vai “pincelar” aspectos mais importantes do pensamento coreológico, já o extensivo vai se aprofundar mais em cada aspecto e, possivelmente, trabalhar mais conteúdo devido a maior disponibilidade de tempo.

Quais os principais aspectos que você destaca neste curso?

O principal ponto do curso é dar aos alunos ferramentas para entender, coreografar, expressar e comunicar com critério para concretizar suas próprias ideias. O aluno não aprenderá uma escobilla; mas como se compõe a percussão dos pés, como se estrutura uma escobilla em cada palo, as possibilidades de estrutura, como compor as linhas e intensidade do braços, uso do espaço, etc. Com estas informações, cada um poderá entender qualquer escobilla e poderá montar suas próprias escobillas. A facilidade de conceitos gradativos, na teoria e na prática, dão outra perspectiva ao próprio ato de dançar, assim como ao “ver dançar” e, principalmente, ao que passa a ser viável sentir e expressar através da dança.

O que o aluno levará “para casa” como resultado?

Quando um flamenco deixa de executar passos, a sua percepção do mundo da percussão e do corpo mudam. Quando deixa de copiar um movimento de braços e descobre que há uma relação entre o caminho dos braços e das mãos, a produção do movimento em si muda. Quando descobre que realmente é possível entender e realizar um conjunto de informações agregadas (percussão dos pés, os braços, as mãos, compasso, estrutura, cante, música, comunicação e expressão), o seu “sentir” flamenco muda porque a complexidade do flamenco integra-se a ele como indivíduo artístico.
Eu espero que os alunos sintam prazer em aprender e não quero que ninguém leve passos para casa. Espero que cada um leve conhecimento e ferramentas para seguir estudando no que se refere à dimensão da linguagem do flamenco. Também espero que os fundamentos do curso permitam ver uma luz no fim do túnel em meio a tantas dúvidas e dificuldades.

“Para ser professor é imprescindível ter claro que somente o saber dançar não basta. Serve de referência, mas não ensina“

Cylla, quem foram seus maestros? Quais os principais aspectos que você destaca de sua formação?

A minha formação acadêmica inicial vem do ballet clássico, do Jazz. Descobri o flamenco em 1986 com Império Montenegro e, depois do seu falecimento, fui aprender com a Ana Esmeralda e participei do seu grupo. Depois disso comecei a estudar como autodidata e os músicos passaram a me chamar para dançar em shows. No meio do caminho também comecei a estudar e a investir em danças populares (para ter outras referências corporais e culturais), além de investigar e estudar os métodos didáticos da dança.
Estudando no Brasil numa época em que existiam somente quatro professores, o material de áudio era muito escasso e não tínhamos nem 5% dos vídeos que se tem hoje em dia, posso dizer que descobri o funcionamento de muitas coisas através de tentativa e erro, da lógica e de muita paciência. Passei muitas horas estudando e analisando cada vinil do Paco de Lucia e do Camarón que os meus pais se matavam para encontrar e me davam com tanto carinho. Foram fundamentais para dar sequência aos meus estudos no Brasil, as influências e referências flamencas dos primeiros cursos internacionais (La China, La Mora, Adrian Galia, La Tacha, entre outros). Em 2005, tinha necessidade de informações novas e vim para a Espanha numa viagem de estudos. Os meus horizontes se expandiram ainda mais ao estudar com Javier Latorre, Israel Galván, Juana Maya, entre outros. Fui ainda assistente de Javier (Latorre) no Festival de Guitarra de Córdoba. Em 2007 me mudei para Madri e, desde então, segui desenvolvendo meu trabalho. Sou infinitamente agradecida pelas oportunidades que tenho hoje de poder estudar periodicamente com maestros e artistas geniais como Israel Galván, Eva Yerbabuena, Talegona, Javier Latorre e outros.

Você já leva um bom tempo vivendo na Espanha. Quais os pontos positivos que destacaria de sua vida nesse pais em relação ao flamenco? E quais os maiores obstáculos – ou dificuldades?

Meu tempo em Madri é tomado por estudo e trabalho. Creio os pontos positivos, como professora e bailaora, são incontáveis. Aqui posso investigar e ter acesso aos trabalhos desenvolvidos, ao pensamento dos formadores, aos cantes, aos maestros, ao critério dos artistas que trabalham com linhas e estilos muito diferentes, assim como à vertiginosa maneira que o flamenco vem se desenvolvendo e evoluindo todos os dias. O que ainda é muito complicado é que a visão do flamenco aqui tende a ser muito discriminatória ainda. Entre os próprios espanhóis é bastante comum que a vida profissional se complique para quem não é Andaluz, principalmente no baile. Não é raro que a tendência ao preconceito impeça um profissional de ter uma possibilidade de mostrar o que sabe. Todavia, quando há essa oportunidade passa a ser um verdadeiro prazer trabalhar aqui e é realmente incrível como até os mais descrentes são capazes de superar esse tipo de pensamento e simplesmente desfrutar do que unos une, o flamenco.

O que é primordial para a formação de um aluno e para um professor de flamenco?

Hoje em dia, acredito que o processo de formação de um flamenco, em resumo, depende do estudo e desenvolvimento de sete pontos principais:

  1. Técnicas corporais gerais e percussão dos pés;
  2. Estudo do movimento flamenco e vocabulário expressivo;
  3. Estudos das palmas, palos, ritmo e compasso;
  4. Desenvolvimento da musicalidade e compreensão dos cantes;
  5. Compreensão das “micro” e “macro” estruturas que compõem o baile;
  6. Estudo dos códigos de baile que permitem a comunicação do corpo com os elementos musicais.
  7. Elaboração e prática artística no palco.

Ser professor é uma área da profissão da dança e é primordial estudar e elaborar didaticamente o flamenco de maneira que a cada aula cresça tanto a sua capacidade de comunicar as informações enquanto professor, quanto a capacidade de consumir informações por parte do aluno.

O seu trabalho sempre focou muito a formação do aluno. Você continua trabalhando na Espanha sob essa perspectiva?

Vivendo na Espanha, creio que o meu trabalho busca – ainda mais que antes – a acessibilidade à formação flamenca e a elaboração didática. Ter a oportunidade de dar aulas de flamenco aqui, para alunos espanhóis e também para estrangeiros (amadores e profissionais), amplia muito a minha visão e o meu estudo como professora e me permite direcionar o ensino e o aprendizado às necessidades da linguagem flamenca, deixando um pouco de lado as necessidades que partem de fatores culturais (como na cultura brasileira, por exemplo).

Como está a Cylla Alonso bailaora hoje? Quais os trabalhos que você vem desenvolvendo?

Nos últimos anos, apesar das oportunidades de dançar aqui, tive muito mais necessidade de receber e de consumir informações, de estudar e de testar muitos segmentos que me pareciam interessantes, do que de estar no palco. Necessitava estender a minha própria expressão artística e precisava buscar mais em mim mesma. Com esse processo passei por muitas transições e, só este ano, comecei a experimentar outra vez a chamada do palco. Agora estou trabalhando no desenvolvimento de um novo projeto flamenco para 2013 e espero poder levá-lo ao Brasil quando estiver pronto.

Para mais informações sobre o Curso de Coreologia para Flamenco, entre em contato com a Escola Dance Arte Úrsula Correia pelo telefone (11) 5084-2897 ou pelo email: dancearteuc@gmail.com.

Para saber mais acesse o site: http://cylla-alonso.webnode.es/

There are 8 comments

  1. Adriana

    Puxa que otimo esse curso pena que nao estou no Brasil, eu estou na foto pois foi um work que ela ministrou na Carmen Romero em Curitiba rsrsrs foi muito bom! Gostaria muiitooo de fazer esse curso que pena…Adriana – Compas y Arte – Joinville

  2. Carmen Pretto

    Maravilhosa entrevista, que confirma meu pensamento, que Flamenco não é um pacote fechado e sim uma forma de expressão de contexto com entendimento.Parabéns Cylla Alonso , sucesso .

  3. Wal Toledo Fonzar

    A melhor experiência que tive dentro do Flamenco foi ter o privilégio de ser aluna da Cylla. Espero que seu trabalho continue fazendo muito sucesso.

  4. Kelly Ribeiro

    A entrevista foi muito esclarecedora e completou as informações que aprendemos com a Cylla no último curso ministrado aqui (ano passado). Agora é aproveitar o foco e “pensar junto”. Algumas ” fichas” caíram para mim, desde ano passado. Realmente é possível ver, sentir e compreender as coisas de forma mais “natural”,”fluente” mesmo. Tomara que muitos colegas (alunos e professores),experimentem… Acho que muita coisa pode mudar!

  5. Gabriel Soto

    Excelente entrevista pois leva à reflexão sobre os rumos que o ensino da dança flamenca pode tomar, priorizando o conhecimento, a liberdade e personalidade de cada estudante enquanto ser expressivo e único, em detrimento da cópia e dos “mecanicismos” pré-estipulados enquanto ensino desta arte. CONHECER primeiro para então ensinar, aprender a APREENDER e reter a informação. Ser professor é definitivamente ensinar caminhos, fornecer ferramentas, na teoria e na prática! Espero ver mais matérias e entrevistas que levem à questionamentos e, por que não, levantem dúvidas, pois é perguntando que se responde, errando que se corrige e acertando que desfrutamos!

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