Flamenquerias: grupo no Facebook agita a comunidade brasileira


Nunca antes na história do flamenco brasileiro a comunidade de amantes da arte participou tão efetivamente e por tanto tempo sobre o assunto quanto no grupo Flamenquerias, criado por Dani Nefussi no Facebook.

Aberto em maio deste ano, o coletivo tem hoje 282 membros que publicam diariamente fotos, vídeos, músicas, enquetes e dúvidas sobre o flamenco, botando o assunto em pauta e movimentando a comunidade.  A ideia surgiu depois que ela participou do debate sobre Ética na Feira Flamenca, realizada em maio pela Kabal Produções.
“Percebi que a comunidade flamenca estava querendo dialogar. Sempre fui catalizadora de reflexões sobre o flamenco, mas com poucos resultados. Percebi que tinha chegado o momento, pois no debate muito se falou de organizar a categoria”, explica Dani.
Assim, o veículo nas redes sociais surgiu como alternativa para a organização da classe, já que fisicamente ainda é muito difícil.
Dani escrevia artigos em seu blog , pois queria trocar reflexões. Mas ainda sentia que falava sozinha.

“Não tinha ideia da dimensão que o grupo do Facebook ia tomar, não imaginava quanta gente também estava guardando seus pensamentos e ansiedades”, conta Daniela.

Daniella Nefussi: "A maravilha do grupo é o respeito entre as partes"

Os assuntos são diversos e de extrema importância, desde como se forma um artista flamenco – e qual a melhor didática pra isso -, qual é o flamenco que se faz no Brasil, até sobre o ensino do flamenco com funções “não profissionais”.
A criadora acredita que trocar experiências é a melhor aprendizagem, sobretudo através da internet, que permite a troca de conhecimentos coletivos: cada um coloca o seu saber e todos ganham com isso.

“Quem participa manifesta a felicidade que sente de estar ali, lendo ou escrevendo, trocando. Nos primeiros dias, ficamos emocionados. E o mais surpreendente é a profundidade das discussões: tem posts que são verdadeiras aulas de música, dança e expressão”, conta.

Ela destaca a generosa e carinhosa participação do mestre Javier Latorre, que segundo Dani, foi receptivo desde o princípio, interessado no que pensamos e fazemos aqui.
“É um homem de mente aberta e sabe da importância da troca de saberes. Tenho certeza que aos poucos, outros que já estão nos lendo, aparecerão”.

Profundidade nas discussões

A principal característica do grupo é a reflexão profunda e coletiva. Os posts têm sempre muitos – e longos – comentários.

Alguns sobre a formação do artista flamenco, por exemplo, têm cerca de 80 comentários, conversas que levam dias. Outros, postados há dois meses, no início do grupo, ainda rendem discussão.

“É preciso vontade para participar, pois escrevemos posts enormes para desenvolver as ideias. Como mediadora, procuro dividir a conversa em mais posts para não ficar cansativo; mas não tem jeito, as pessoas querem se aprofundar”.

Para ela, a maravilha desse grupo tem sido o respeito entre as partes, pois mesmo em assuntos delicados, que chegam a extremos, ninguém nunca gera conflito, e a coisa sempre termina em agradecimentos pela participação.

O assunto mais difícil até hoje? A formação do profissional.
Nesta seara, as perguntas são muitas e difusas, como “O que é imprescindível nessa formação, quando em cada parte do Brasil as realidades são diferentes?” O mesmo acontece assim como a postura do flamenco brasileiro diante dos profissionais da Espanha que vêm para ministrar cursos.

“É natural, a comunidade é feita por profissionais de diferentes formações. Cada um vê caminhos diferentes, pois tem experiências distintas, mas conseguimos acrescentar pensamentos uns aos outros”.

O post mais emocionante? Dani pediu cada um descrevesse qual foi seu primeiro contato com a arte flamenca.
“As respostas trazem lágrimas aos olhos: uma bonequinha espanhola que tinha na casa de um, outra que entra numa sala de aula errada, uma música que aparece no rádio… é belíssimo ver como o “destino” introduziu o flamenco na vida de cada um!”

Nefussi acrescenta que o Flamenquerias tem o intuito de provar que o flamenco que fazemos no Brasil não é inferior em relação a nenhuma outra dança feita em nosso país, ou mesmo ao flamenco feito em qualquer parte do mundo.

“Há décadas temos artistas tirando sua sobrevivência dessa arte, o que faz dela nossa também. Estamos construindo sua história como qualquer outro povo, inclusive o espanhol. Quero levantar a autoestima do nosso flamenco, pois respeitar o flamenco andaluz não é diminuir nossas conquistas! O grupo Flamenquerias é isso: a expressão do flamenco brasileiro”, finaliza.

 

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