Entrevista com Tiza Harbas

entrevista_tiza_harbas_homeNão há como falar do Flamenco no Rio sem pensar imediatamente em Tiza e Allan Harbas. Os dois dirigem o projeto Alma Flamenca há mais de 10 anos com o objetivo de reunir amantes e profissionais dessa arte, promover e difundir o flamenco e o intercâmbio com artistas de outros países.Tiza Harbas é cantaora e bailaora, dá aulas no Sol y Luna Danzas (Tijuca) e Studio Gesto (Copacabana) e começará, este mês, uma oficina sobre montagem no Estudio Bailado.

Como o Flamenco entrou na sua vida?
O flamenco foi a paixão que chegou junto com o amor. Eu fazia aulas no Espaço da Natércia Loureiro, naquela época era de dança cigana. Tive que passar na escola no dia errado, quando o Allan estava tocando na aula do Túlio Cortez e fiquei encantada com a “mão direita da guitarra flamenca” (risos). Troquei a dança cigana por flamenca e, em menos de um mês, fui estudar com a professora Carmen Del Rio (Carmen Dotto), uma grande bailaora, que foi quem abriu meus olhos e do Allan para o estudo do flamenco. Em 4 meses, me casei com Allan Harbas, guitarrista flamenco e, um ano depois de nos conhecermos, fizemos o primeiro show Alma Flamenca no Lugar Comum Arte e Cultura em Botafogo.

A partir de que momento você resolveu levar o flamenco para o lado profissional?
Não foi nada pensado, nem muito claro. O Allan começou a me dar músicas para escutar e o “Campanilleros” foi o tema inesquecível daquela fitinha que eu ouvia incansavelmente. Mas meu primeiro cachê foi cantando lírico: uma performance com a “Habanera”. Com o grupo da Carmen, eu comecei dançando no corpo de baile, mas desde o princípio fui soltando a voz e como engravidei ainda no final da primeira temporada que fazíamos, os acontecimentos me definiram como cantaora e, somente em 2005, foi que minha porção bailaora voltou à cena.

Você também canta outros estilos de música? O que veio primeiro: a música ou o flamenco? Você resolveu cantar por causa do flamenco ou essa modalidade veio depois?
Cronologicamente: eu dançava jazz e tocava piano clássico. Me mudei de volta para o Rio de Janeiro (de volta – saí da cidade com 5 anos e fui morar no interior de São Paulo) com 13 anos e segui com jazz e piano. Muitos anos depois, depois de entrar para o curso Técnico de piano na UFRJ, me encantei com o canto e mudei para canto lírico. Em meio a isso, me arrisquei com algumas bandas de rock na escola e em uma viagem que durou um ano e meio pelos Estados Unidos, estudei com duas cantoras da Broadway. No flamenco, acredito que a dança me levou ao canto e o canto trouxe de volta a bailaora. Mas, profissionalmente, apesar da estréia cantando a Habanera, trabalhei somente com flamenco.

Quem foram seus principais maestros? E que cantaores (ou cantores) você usou como inspiração e influência para o seu trabalho?
Meu maior maestro é, sempre foi e sempre será o Allan. Ele me dizia o que estudar e como, ele me dizia o que observar nos artistas, as diferenças do cante para baile e os CDs de cante, enfim, tudo. Quando fomos para a Espanha, estudei com o maestro Talegón de Córdoba. Foram algumas aulas apavorantes porque ele é um virtuoso e ao vê-lo atuando, meu único sentimento foi medo de jamais poder fazer aquilo. Mesmo assim, teimei e sigo teimando porque jamais deixamos de aprender. A artista que eu mais admiro é Estrella Morente porque é certamente a mais versátil de todas entre tantos grandes que eu admiro.

Como todo artista, você deve ter enfrentado muitas dificuldades ao longo da carreira. Qual foi a pior? Em algum momento você pensou em desistir disso ou teve dúvida se era realmente o que você queria?
Muitas vezes pensei em desistir, muitas vezes tive dúvidas. A arte porém, nunca foi a razão de pensar em desistir, nem o resultado dos trabalhos. O culpado sempre foi o retorno financeiro que nunca é proporcional à nossa dedicação e também ter que acumular a função de produção, o que cansa muito e divide a atenção porque nunca posso dedicar 100% à arte. Mas somos teimosos.

E na dança, como foi o seu aprendizado e quem são suas principais influências e maestros?
Nossa, depois da Carmen, eu fiz aulas com Maria Thereza Canário, Eliane Carvalho, Simone Abrantes e Flávia Lopes. Em aulas regulares no Rio. Mas eu não era muito frequente, o que me deixava irritada porque minha memória precisa de repetição intensa para registrar coreografias. Então, ao organizar cursos, eu acabava por fazê-los também. Mas dentre as pessoas maravilhosas para quem organizei cursos ou que somente participei, digo que meu maestro é Domingo Ortega porque ele realmente entende o que está fazendo com o cante, e porque ele é um gênio. A Inmaculada Ortega é minha segunda maestra porque, como ele, valoriza a alma do flamenco que é o cante e os dois são profundos conhecedores.

O que você acha mais importante para um cantaor? A técnica ou a emoção?
Não acredito em técnica separada da emoção. Acho os dois essenciais, seja no cante, seja no baile. A emoção sem a técnica fica limitada porque o artista não terá instrumento para transmitir ou provocar emoção. A técnica sem emoção é vazia e insossa.
Você já passou algumas temporadas no Japão. Conte como foi essa experiência.
O Japão foi o meu maior desafio. Fomos 3 vezes. Na primeira, eu fui cantar, fui como companheira do Allan que foi contratado como guitarrista. Fomos com nossa filha mais velha. Naquele momento, eu havia feito um solo no show que o Rodrigo Garcia organizava no Ginga Brasil, na Glória e tinha dançado em grupo no show de fim de ano de Eliane Carvalho, ao lado de Clara Kutner e Daniela Matheus. Fui para o Japão, estudei diariamente sozinha, comecei a carreira cantando e dançando ao mesmo tempo. Miguel Cañas foi dançar lá como convidado e me adorou. Foi ele quem deu um start na minha carreira de professora de baile pois me indicou para dar um curso especial para as estudantes da escola Tiempo Iberoamericano, em Fukuoka. Por uma casualidade, o professor das aulas regulares teve um contratempo e eu o substituí por uma semana. Com isso, o retorno positivo das aulas que dei chegou aos ouvidos do diretor da instituição.
Em 2008, o casal de artistas encarregado teve que se ausentar e ele precisava que o Allan fosse com urgência para montar o espetáculo de fim de ano em 4 meses. Fomos com nossa segunda filha nos braços. Mais uma vez, meu grande professor (Allan) me deu um presente, sugerindo que eu fosse como professora encarregada. Eu topei o desafio e montei as coreografias de meus grandes maestros nos dois níveis avançados e montei minhas próprias coreografias nos outros dois níveis. O show foi um grande sucesso.
Em 2009, eles nos convidaram para passar o período de 1 ano lá. Desta vez, fomos com as duas filhas. E montamos 2 espetáculos.
O melhor de lá, além de poder dar aulas para 5 níveis diferentes, ter shows semanalmente, dirigir as alunas semi-profissionais, a menina dos olhos para mim, era poder dar dois workshops mensais de montagem coreográfica. Definitivamente a criação é o que mais me motiva, seja em uma coreografia, seja na concepção de um show.

Que dificuldades ou barreiras você acha que o profissional de flamenco – tanto da dança como da música – tem que enfrentar no Brasil e no Rio?
No Brasil, a maior infelicidade que qualquer artista pode passar, talvez ainda maior do que a pouca remuneração, é ter este trabalho tão importante, de artista, de fazer viver a emoção latente no coração do público, considerado hobby e, eventualmente, ter que ouvir perguntas do tipo: “ah, ok, você vai tocar hoje, mas, qual é o seu trabalho?”

Portanto, acredito que a primeira barreira seja cultural. O piso salarial de músico para um show está mais ou menos R$800,00. No entanto, ao passar este custo para um contratante já que também sou produtora, ouvimos pérolas como: “nossa, vou virar músico também!” A pessoa não entende que, para estar ali tocando uma hora, o músico tem que chegar cedo, passar som, estudar horas infindáveis, fazer cursos, enfim, investir. Com os bailaores, é o mesmo. Falando especificamente de flamenco, acredito que a maior dificuldade é permanecer na luta pelas razões mais diversas.

Você dirige, junto com o Allan, o projeto Alma Flamenca. O que motivou a criação desse projeto? 
O que nos motivou foi ver que não havia movida flamenca no Rio de Janeiro naquele momento. Claro que houve iniciativas antes. Nunca acreditei no marketing de “O primeiro. O melhor. O único”. Enfim, Maria Thereza Canário, por exemplo, já havia organizado diversas edições do Arte Espanha Rio. Mas começamos com a ambição de mostrar nosso trabalho. Para isso, produzimos o evento que falei antes, em Botafogo. Convidávamos os grupos e se, eventualmente, faltasse cantaor ou guitarrista, nos disponibilizávamos para as funções. Assim, conhecemos inúmeros artistas e como músicos, podíamos transitar entre todos eles. Acho que foi por isso que o flamenco no Rio foi se tornando tão coeso, pois como as iniciativas eram nossas e queríamos que os grupos trabalhassem juntos, isso gerou uma característica de união comentada tanto pelos artistas internacionais como pelos brazucas. Na história do Alma, fizemos um show com 19 músicos no palco. E eram só cariocas. Imagine, uma fila de guitarristas! E contamos com os diversos grupos de dança flamenca para encerrar o show. Foi uma única noite inesquecível no Teatro Carlos Gomes, que durou 3 horas. Coisa linda de se ver.

O que mais marcou a sua vida no Flamenco?
Tudo. Minha vida é flamenca e é pelo flamenco. Meu casamento, minhas filhas, minha arte, tudo veio do flamenco. Cruzamos o mundo com as filhas nas costas para fazer flamenco. O flamenco define minha vida. Acho que é isso.

E para este ano, quais sao os projetos do Alma Flamenca para o Rio?
Temos dois projetos aprovados na Lei Rouanet em fase de captação. Estamos estreando no Espaço SESC o espetáculo “Transitório” do grupo Toca Madera, dirigidos por Clara Kutner, dia 30 de março. Faremos dias 8 e 9 de março uma apresentação produzida e com a participação de Ciro Barcelos, meu primeiro diretor. Dia 3 de março faço o primeiro curso no projeto de “Oficina de Montagem” no Estúdio Bailado, que terá duracão de um mês. Em final de março, estaremos em Belo Horizonte com a Tacón Moda Flamenca para show e oficinas. Estamos concebendo um show e estou negociando para ver onde ele estreará. Sigo com minhas aulas regulares na Sol y Luna e no Studio Gesto. Enfim, estamos sempre inventando e aceitando novos desafios.

Publicar comentário