Pepa Molina além do baile

Sua família vem de uma das cidades mais apaixonantes e emblemáticas da Espanha: Granada. É lá que está o majestoso Alhambra, que um dia abrigou califas e conquistou os reis católicos com a beleza de sua arquitetura. As ruas desta cidade ouviram o nascer da poesia de Federico Garcia Lorca, mas também o estrondo da guerra civil espanhola. Tablados, cuevas e teterías, Granada faz parte dos sonhos de muitos aficionados ao flamenco. Um lugar perfeito que já deu muitos frutos para esta arte e para o mundo, e que o Brasil recebeu de braços abertos: Pepa Molina.

A convite do Tablado Andaluz, em Porto Alegre, que completou 20 anos de existência, Pepa Molina se apresentou no Teatro do CIEE, no início de novembro, além de ministrar curso na própria escola que a convidou. De 12 a 15 de novembro, foi a vez de São Paulo conhecer um pouco mais da arte desta grande artista que já participou das companhias de La Mariquilla, Juan Andrés Maya, Manolete e Rafael Amargo, e se apresentou nos principais tablados de Granada e Madri.

O ano de 1998 trouxe muitas mudanças em sua vida, quando foi para Madri estudar em Amor de Dios, centro referência no ensino da arte flamenca na Espanha e no mundo.“Vir para Madri foi um sonho feito realidade, encontrei a dança de mil diferentes formas. Continuo a estudar em Amor de Dios e agora também faço parte do seu quadro de professores”, conta.

Esteve no Brasil em 2003 por ocasião do Festival de Teatro de Londrina. “Adorei o astral, as pessoas são muito abertas, me diverti muito”, lembra. Para ela, o flamenco chama a atenção das pessoas pelo seu caráter visceral e paixão. “É uma terapia, uma válvula de escape para as tensões e preocupações. Uma vez que se começa é difícil ficar sem ele”, diz. Acompanhe a entrevista.

“Ensinar é uma grande responsabilidade…”

Como você começou a bailar? Houve ou há bailaores em sua família, ou você viu alguém dançar e pensou: isto é o que eu quero…?
Comecei a dançar aos oito anos. Minha mãe me levou a uma academia em Zaídin, em Granada. Não houve bailaores em minha família, mas tenho um tio conhecido como “El moro”, e ele canta, mas não profissionalmente. Sempre que cantava, me chamava para dançar. O filme “Carmen”, com Antonio Gades, me marcou muito, e foi quando senti que o baile me chamava para atuar em outro nível – esse filme me incentivou a dedicar-me profissionalmente.

Em que momento você pisou pela primeira vez em um palco e o que esta experiência lhe trouxe?
Ainda criança, nas festas de “La Cruz de Mayo” ou nas festas de bairro junto à academia onde estudava. Vivi grandes momentos. Me lembro que no início ficava um pouco envergonhada, mas logo eu me animei … A primeira vez, profissionalmente, foi em uma gala com o meu professor Antonio Vargas e dançamos em três umas alegrias. Naquela época eu tinha tanta vontade de dançar que devorava tudo, foi uma época muito bonita que vivi com muita paixão, devorando vídeos e tudo que eu podia ouvir e ver para continuar a aprender…

Você nasceu e cresceu em Granada? Qual é o sabor do flamenco de Granada e o que o distingue daquele feito em Jerez de la Frontera e Sevilha, por exemplo?
Eu nasci na Austrália. Minha família é de Granada, emigrou e voltou para Granada quando eu tinha um ano de idade. Foi ali que eu comecei a dançar. Em Granada existe uma longa tradição no baile, tive a sorte de ter muito bons professores como La Mariquilla, Manolete e Juan Andrés Maya. O que distingue o flamenco de Granada é a força, o arranque, o peso ao pisar no palco, ter uma boa estampa, o sapateado muito limpo, com velocidade e boa pulsação. Podemos morrer por tangos, não se dança tangos melhor que em “Graná”… Adoro a escola sevilhana, é essencial para a mulher, e em Jerez, bulerias não tem igual. Cada lugar tem a sua marca, e é isso que eu adoro. É preciso beber de todas as fontes. Quando eu tinha dez anos voltamos para Sydney e morei ali até os 23 anos. Depois, voltei para Granada e, agora, Madri…

Em seu mais recente trabalho – “Ni aquí ni allí” (“Nem aqui, nem lá”) – existe uma linguagem mais contemporânea. Além do flamenco, você estudou outras danças, como a clássica ou contemporânea?
Sim, eu estudei dança espanhola, folclore, ballet clássico, dança contemporânea. Trabalhei o conceito do contemporâneo na dança em uma companhia chamada “Arrieritos”, pioneiros no campo do flamenco – dança contemporânea. Em “Ni aquí, ni allí” há uma base conceitual, o uso de outra linguagem no baile, pois queria investigar outros meios teatrais usando a cenografia, o audiovisual, os textos, que adicionam uma nova dimensão à história que se quer contar…

Você também é professora. Qual é o significado de ensinar?
É muito gratificante ensinar, é algo que eu gosto e também sinto que recebo muito em troca dos meus alunos. Ensinar é uma grande responsabilidade porque influímos em muitas pessoas em seu caminho de aprendizagem. É importante incutir perseverança, compromisso e a arte, é claro.

 

“Agora, o meu momento está no teatro…”

Como você define a sua maneira de dançar hoje?
Elegância, o peso firme com força, versatilidade e domínio dos elementos. Acho que estou em um momento de evolução, estou sempre buscando novas formas que possam me levar além daquilo que o meu corpo já conhece. Estudo ballet e considero que a técnica é uma ferramenta para projetar nossas almas. Com o ballet estou curtindo levar o meu baile para outro patamar, com disciplina, mas com liberdade.

Você dançou com grandes figuras do flamenco e também desenvolveu trabalhos diferentes junto a eles. Que vestígios essas experiências lhe deixaram?
Sim, eu tive a enorme sorte de trabalhar com muitos grandes artistas e aprender com eles. Isso faz com que depois você seja você mesmo, tenha a sua marca, sem perceber que, afinal, é resultado do acúmulo de suas próprias vivências, e aqueles que compartilham o seu caminho fazem parte de você.

Algum professor – ou momento – lhe trouxe alguma mudança sobre a sua maneira de ver e viver o flamenco?
Acho que tentei aprender de cada um os detalhes que os fizeram grandes.

Você dançou nos principais tablados de Granada e Madri, mas também em teatros. O que prefere e por quê?
Comecei no tablados e isso, naquele tempo, era a verdadeira escola. Essa conexão com o público, tão perto e imediata, vital e espontânea é imprescindível para a nossa arte – é uma necessidade. O teatro permite elaborar melhor tudo o que se faz, o baile, a colocação em cena, o ambiente, é realmente onde damos asas à imaginação e criamos com liberdade a personagem que queremos interpretar. Acho que fico com os dois, um para cada momento, e agora o meu momento está no teatro.

“Ni aquí ni allí…”

Quais são as suas inspirações para criar e coreografar?
Eu tenho me inspirado, algumas vezes, na minha própria experiência de vida, outras, na própria música para dar forma a uma criação.

Em um de seus trabalhos recentes – Ni aquí ni allí (Nem aqui nem lá) – você escolheu um tema muito universal, a emigração. De que maneira esta questão lhe toca?
Sim. Este espetáculo nasceu das minhas vivencias na Austrália junto aos meus pais e outros imigrantes andaluzes que tiveram a coragem de deixar para trás suas raízes para batalhar por um futuro melhor. Além disso, como tema a imigração está cheia de matizes para criar distintos planos musicais, coreográficos e emocionais apoiando-se no cante flamenco.

Você canta – Cry me a River – neste show. Como foi escolher essa música, e como tem sido a receptividade do público? O que significa cantar para você?
O cante sempre me fascinou, mas nunca quis me dedicar a ele, escolhi a dança. Foi um desafio. Na adolescência, eu costumava me reunir com amigos músicos e fazíamos sessões de “Jam” com vários estilos musicais. Eu me alimentei de diversos estilos de música na adolescência, tinha uma grande coleção de vinil. Pensei: por que não? As pessoas ao meu redor me incentivavam a cantar e, então, decidi tentar. Foi um sucesso completo, porque depois de dançar durante todo o espetáculo, ninguém esperava um final assim, ver a minha faceta como cantora. Tem sido muito gratificante ver a reação do público e da crítica, dá uma nota de frescor ao espetáculo. Cantar para mim é algo natural, através do qual me solto.

Quais são seus planos para 2012?
Vou estrear um novo espetáculo em janeiro, “Ay, Pepa! Que história la tuya”. É uma homenagem à primeira Constituição espanhola, popularmente conhecida como “La Pepa”. No próximo ano é o bicentenário 1812 – 2012, por isso é um grande acontecimento. É um projeto no qual passamos muitos meses de pesquisa histórica, uma vez que é um trabalho com contexto histórico – político, além de pesquisa musical, cênica e teatral. Agora estou no fase de montagem coreográfica, dando vida à história que quero contar. É desafiador, porque combino vários estilos de dança, música e linguagens cênicas teatrais.

O que o flamenco representa para você?
É como uma vitamina, que alimenta os sentidos e a alma. É imprescindível…

Para saber mais sobre Pepa Molina acesse: www.pepamolina.com

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