Manuel Reyes e os dilemas do homem contemporâneo

tradução e edição Alejandra Osses

Quando ele veio ao Brasil pela primeira vez em abril de 2011, conquistou a todos com a sua simplicidade, profissionalismo e simpatia. E, claro, também com o seu taconeo, movimentos elegantes e soniquete impecável. Ah! E paciência infinita ao ensinar seu alunos paulistas, campineiros, gaúchos e mineiros.

Conquistou, mas também foi conquistado. Manuel Reyes, importante nome do baile flamenco e grande maestro espanhol, gitano da gema, voltou ao Brasil em outubrobdo ano passado para uma temporada relâmpago de workshops. Quem participou desta edição pode conferir, em uma palestra que se transformou em um delicioso bate papo, não só um pouco da trajetória deste artista, mas sobretudo sobre o significado da arte flamenca.

Nesta entrevista, Manuel Reyes falou com exclusividade para Flamenco Brasil sobre o seu novo espetáculo “Ensayos y Acuerdos”, que estreou em julho, no México. Acompanhe.

Qual é o argumento central do espetáculo?
Gostaria de me referir justamente a um dos textos que encontramos no próprio espetáculo. “Ensayos & Acuerdos” procura revelar que apesar de concordarmos ser absolutamente necessário viver em sociedade, talvez nós também deveríamos saber que, graças ao uso indevido que o homem está fazendo dela, acabou se tornando uma faca de dois gumes. Uma arma revestida, por exemplo, de religião, comunicação ou qualquer outro meio que possa exercer controle sobre o indivíduo, nos afasta cada vez mais de liberdades, disfarçadas de avanço, progresso e conforto.

Pensando na relação entre criador e criatura, de que forma “Ensayos y Acuerdos” tem a ver com a sua relação com o mundo?
De certa forma pode-se dizer que “Ensayos & Acuerdos” é o produto de uma fase de busca pessoal. O processo de criação do projeto me serviu como alimento para trazer clareza a diferentes percepções do ser humano e seu comportamento social. De alguma forma este espetáculo me levou a definir a idéia de que o ser humano pode alcançar uma maior realização pessoal ouvindo a si mesmo e na elaboração de valores próprios e longe de uma sociedade que cada vez é mais manipuladora e estereotipada.

Quanto tempo levou a concepção deste projeto?
Todo o processo de gestação do projeto durou mais ou menos dois anos e a realização do mesmo, ou seja, todos os ensaios, por volta de dois meses e meio.

Por que estrear no México e não em Madri?
Houve várias razões pelas quais decidimos estrear “Ensayos & Acuerdos” no México. Antes de mais nada, devíamos isso a um pessoa que tem trabalhado intensamente pela realização deste projeto, nossa empresária, Selene Gonzalez que, além de tudo, é mexicana e achamos que o México seria um bom ponto de partida, porque consideramos que é um dos países sul-americanos que mais está crescendo. Justamente há um ano, durante uma temporada de workshops, tive o prazer de estar no país onde decidimos materializar a idéia que já estava pairando na minha cabeça há algum tempo.

Como foi a estréia? Como a crítica recebeu este novo trabalho?
Bem, a estréia foi como costuma ser em todas as estréias. Muito nervosismo, estresse, detalhes de última hora que têm precisavam ser resolvidos, uma corrida contra o tempo. Mas no geral eu acho que o balanço foi bastante positivo. Em relação à mídia, posso dizer que havia muita expectativa e tivemos uma ampla cobertura, tanto na imprensa escrita como no rádio e na televisão. Mas o que nos surpreendeu muito foi o fato de que os mexicanos não têm a tradição de fazer críticas aos novos espetáculos e, na verdade, sentimos muito a falta disso, e não importa a índole dessa crítica.

Sabemos que além de diretor, coreógrafo e produtor, você compôs as letras do espetáculo em uma espécie de monólogo. Você tem o hábito de compor canções?
Em um processo de criação, ou colocando de uma maneira mais modesta, no esforço e na tentativa de realizar um projeto, eu acho que há uma grande solidão. É por esta razão que na maioria dos casos componho letras e textos que preciso para o meu trabalho. Algumas pessoas podem pensar que é por egocentrismo e vaidade, mas a verdade é que uma das principais razões, embora não a única, é a solidão.

O espetáculo mistura diversos estilos tanto no baile como na música. Pensando neste contexto, quais foram as suas influências?
Na minha formação como bailarino, tive a grande sorte de poder estudar diferentes disciplinas, como o balé clássico e a dança espanhola, entre outras. Eu acho que, graças a essa convivência, a minha formação como bailarino foi enriquecida e, portanto, este conjunto de circunstâncias têm tido um impacto direto na forma de criar e desenvolver o meu trabalho. Da mesma forma, seria lógico pensar que estes aspectos têm também exercido influência no meu gosto musical, onde há espaço para a diversidade.

Por que fazer esta mistura?
Alguém disse uma vez que “o gosto está na variedade”. É possível que neste momento da minha carreira, eu esteja em maior harmonia com as fusões, desde que elas contribuam para enriquecer de maneira clara o trabalho em questão. Então, eu acho que em um momento determinado, o flamenco pode ficar um pouco limitado em seu contexto original, quando o objetivo final de um trabalho é transmitir ao espectador uma história que contém uma mensagem ou uma visão particular sobre algum assunto

Você gostaria de trazer a sua companhia ao Brasil?
Hoje, nossos representantes e produtores estão apresentando o material de divulgação do espetáculo em diversos países, incluindo o Brasil, é claro! Eu realmente gostaria de apresentar este novo espetáculo no Brasil, pois sinto uma profunda admiração pelos músicos maravilhosos que esta terra produz. Mas esta apresentação será bem depois dos workshops no mês de outubro.

Considerando a sua trajetória como bailaor, como você descreve o seu momento atual?
Este é um momento em que estou experimentando diferentes sensações. Por um lado, a satisfação de ter conseguido realizar um trabalho em que todos os integrantes da companhia fizeram um grande esforço, e em segundo lugar, as expectativas que tudo isto cria, ver como o público vai receber a proposta. Mas, mesmo assim, a pauta e o tom geral que eu tento adotar sempre é continuar a jornada de trabalho dia a dia, pois esta é uma das áreas profissionais onde a verdadeira sensação que se tem é que sempre estamos em um constante começar, por mais experiência que se tenha.

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