por Marilyn Mafra  fotos Valdemir Klamt

Em maio, a jovem bailaora peruana Jimena Cuéllar, de 22 anos, esteve na cidade de Joinville, em Santa Catarina, para ministrar cursos na escola Compás y Arte.

Jimena, filha de um andaluz de Almería, começou a dançar com seis anos de idade, com formação clássica e flamenca. Atualmente dirige, junto com sua irmã também bailaora Diana Cuéllar, a escola Pasión Flamenca em Lima.

Em Madrid, ambas estudaram na escola Amor de Diós, com La Talegona, David Paniagua, La Truco, Antonio Reyes, Jose Maya, El Farru, Merche Esmeralda.

Entre as aulas, a bailaora concedeu entrevista exclusiva para o Flamenco Brasil.

Como você foi convidada a vir a Joinville?
Adriana Alves, diretora da Compás y Arte, chegou a minha escola no Peru, Pasión Flamenca, fez aulas comigo e comentou a ideia que lhe encantaria trazer-me a Joinville. Desde então, mantivemos contato.

Como é o flamenco no Peru?
Quase todo o desenvolvimento flamenco se concentra em Lima. Em Trujillo, norte do Peru, e na Feria de San José, onde há touros, às vezes há espetáculos flamencos.

Em Lima, há três escolas grandes, mas o flamenco está crescendo, tem poucos músicos, temos três ou quatro guitarristas, um cantaor e uma cantaora que está aprendendo. O mais difícil são os músicos. Temos bastante alunos, muita gente que quer aprender, mas a nível profissional há poucos. E os que se dedicam exclusivamente ao flamenco, ainda menos.

O movimento de cursos internacionais no Peru também está começando a crescer. Faz pouco tempo levamos Cláudio Arias (Argentina) e Concha Jareño (Espanha), que esteve de 8 a 12 de junho. Antes de Concha, Beatriz Perez foi ao Peru durante 8 anos (ia todos os anos), mas faz uns 4 anos que parou de ir. Depois de Beatriz, começamos a levar professores espanhóis como Marcos Jimenez e Angeles Gabaldón.

Com quem você aprendeu Flamenco?
No começo, com Aidé Salazar, que me ensinou Clássico Espanhol. Depois chegou Maria Amaya, a irmã de Carmen Amaya. Maria ensinou flamenco, mas flamenco um pouco antigo. Depois surgiram as principais escolas, fui a Espanha fazer cursos dois anos seguidos, fui a Argentina e trouxe professores ao Peru.

Como é a relação com sua irmã que também é bailaora?
Muito boa, nos apoiamos muito e é muito mais fácil para nós co-dirigir a escola porque há tantas coisas em que pensar, para fazer, sobretudo quando vem a época da mostra das alunas – fazemos duas ao ano. Além disso, as alunas têm a vantagem de ter aulas com as duas e estar na mesma escola.

Como o flamenco troca experiências com uma cultura tão forte como a peruana?
Agora cada vez se faz mais fusão do flamenco com a cultura peruana porque de fato, em nossa história, os espanhóis viveram muito tempo lá e muitos dos ritmos exclusivamente peruanas têm rítmicas parecidas ao flamenco, como o Tanguillo que têm o mesmo ritmo que o Zapateo Negro. Também se utiliza o lenço em alguns bailes. Existem muitos bailes dançados de casal como as sevillanas. Há castanholas também. Só que no Peru se toca diferente, com as pernas, têm outro som. No nosso último espetáculo dançamos Tondero, em que se utiliza um xale grande e nós fizemos com mantón. Há vários ritmos que se assemelham bastante aos ritmos flamencos. Na Marinera Norteña, por exemplo, os homens e as mulheres sapateiam bem parecido com o flamenco, só que a mulher é descalça e o homem com sapato.

O que você pensa sobre o flamenco nos países sul-americanos?
Acho interessante que busquemos nossa identidade. Nós não devemos querer bailar como os espanhóis, porque não somos espanhóis, não nos criamos nessa cultura. Na verdade, o que tento inculcar nas alunas é que internalizem o flamenco e o expressem como sintam. Não acho que dançar como os espanhóis deve ser o nosso objetivo, senão adotar o flamenco como norte e expressá-lo com o nosso sangue, porque nós o sentimos de forma diferente.