por Carolina Zanforlin

Maria Juncal é bailaora e professora do Centro Flamenco Amor de Diós, nasceu em Palmas de Gran Canárias, na costa oeste da Ilha de Gran Canária. Começou estudando ballet e clássico espanhol com sua tia avô Trini Borrull, é neta de bailaora e guitarrista flamencos e começou sua carreira flamenca em Madri, tendo como sua primeira aluna, uma brasileira. Hoje tem sua própria companhia, da qual faz parte o bailaor brasileiro Stefano Domit. Por esses e outros contatos que teve com brasileiros flamencos, a bailaora diz que não vê a hora de conhecer a o Brasil. ¡Que venga!

Sendo natural das Ilhas Canárias, como surgiu seu interesse pelo flamenco?
Comecei dançando sevillanas e clássico espanhol em um grupo com uma de minhas primeiras professora e dancávamos pelas Ilhas Canárias, até que aos 17 anos decidi que tinha que ir para Madri. Me recomendaram a escola Amor de Dios e meus primeiros dias ali foram muito ruins, não tinha ideia do que estavam fazendo e chorava muito, pedi para minha mãe me tirar de lá, foi um trauma a primeira vez na Amor de Dios.

Maria JuncalComo foi a experiência de se profissionalizar no flamenco em Madri?
Minha primeira experiência profissional foi com o maestro Guito, ele me deu a primeira oportunidade, me chamava “la Canária”, depois ele me deu o nome de Juncal. Mesmo sendo de uma familia com tradição no flamenco, uso esse nome. Minha avó é inconformada por não utilizar o nome Borrull (um dos grandes nomes do flamenco na Espanha, seu bisavô Miguel Borrull como guitarrista e sua avó como bailaora), eu disse: “mas vovó foi o Guito que me deu o nome!”. Tendo a oportunidade de bailar no corpo de baile do Guito, conheci e dividi palco com grandes nomes do flamenco como Sara Baras, Eva Yerbabuena, Carmen linares, Jose Mercé… Depois surgiu a oportunidade de bailar em tablado, o primeiro foi Cafe de Chinitas e montei minha primeira alegría, quando subi ao palco estava tão nervosa que esqueci tudo e dancei três minutos, mesmo assim continuaram me chamando para dançar, apenas me disseram que o baile teria que ser mais longo (risos). E assim foram passando as coisas, com muito apoio, muito esforço e muito trabalho! E alguns sacrifícios.

Como o que?
Dias inteiros dedicados ao baile, já cheguei a ensaiar de 8 a 10 horas por dia durante anos.

O que significa Juncal?
Significa algo bonito, bem feito.

Como foi a mudança de aluna a professora da Amor de Dios?
Joaquin viu que chegou o momento. Já dava aulas particulares e para pequenos grupos e então veio o convite, foi depois do prêmio “Antonio Gades”. Não me lembro muito bem como foi, mas comecei com uma ínica aluna que aliás era brasileira, a Claudia, e depois vieram mais e mais. Dar aulas é algo que amo e que faço com muita dedicação e amor.

Maria JuncalAlém de ter ganhado prêmios como o de “Antonio Gades” em 2004, e de melhor coreografia solista de flamenco no XV Certamen de Coreografia de Danza Espanhola e Flamenca com o espetaculo “El Encierro de Ana Frank” em 2006, e também com as apresentações de seu ultimo espetaculo “Tercera Llamada” mostrou que em pouco tempo criou muito. Como é seu processo criativo?
Em todos os momentos podem vir pensamentos para espetáculos, principalmente quando estou viajando. Já trabalhei de duas maneiras diferentes, montando coisas sozinhas e depois com os músicos e nos últimos dois espetaculos, ao contrario, os músicos me deram as músicas segundo as ideias que já conversamos, e montei depois.

Hoje você tem um brasileiro em sua companhia, o Stefano Domit, como vê tantos estrangeiros trabalhando com o flamenco?
Tenho muitos alunos estranjeiros e acredito que o flamenco se sente, independente de onde seja a pessoa, essas pessoas talvez tenham que buscar mais informações, porém a dedicação é a mesma, o Stefano é um menino muito focado, dedicado e sério trabalhando. Ainda mais agora, com seu próprio espetaculo, no qual faço uma participação.

Você se identifica mais com o flamenco antigo ou o chamado novo flamenco?
Não acredito no termo flamenco antigo, acho que o flamenco é o intérprete, estamos no século XXI e já não podemos bailar o que se bailava, o flamenco mudou, inclusive musicalmente com outros instrumentos, mas gosto que vejam que eu danço flamenco, mesmo estudando outros tipos dança como o Ballet Clássico para preparar para o flamenco. Nos meus espetáculos tento priorizar o máximo os instrumentos principais do flamenco, a guitarra e o cante.

Que palo se sente mais a vontade na hora de dançar?
Não saberia dizer um, gosto de muitos, mas me sinto bastante confortável bailado por alegrías e por farruca.