A chave do flamenco

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Devo confessar que poucas vezes experimentei uma emoção tão profunda como quando descobri o enorme amor que se manifesta pelo flamenco em um País aparentemente tão longe, não só geograficamente como também culturalmente da Espanha, como é o Brasil. Ninguém duvida que o flamenco é uma manifestação de enorme pujança internacional, que cada vez mais tem adeptos no mundo. Porém, na Espanha, a maior parte das pessoas pensa no Japão, Alemanha ou França quando se trata de dar nomes a países estrangeiros amantes da nossa cultura em geral e do flamenco em particular.

David Hurtado

Ainda assim, a mais importante das questões pendentes no flamenco é a de carecer totalmente de rigor científico na hora de realizar um estudo sério e completo sobre aspectos tão básicos      como, por exemplo, sua história. A razão disso é o fato da Flamencología (disciplina    que oficialmente não existiu academicamente até 2004, ano em que foi implantada no    Conservatório Superior de Música de Córdoba) ter estado na mão de poetas, escritores,    ou simples amadores afastados da forma científica de investigação. A principal        consequência disso é que não se pode falar de uma história do Flamenco, já que o que       se oferece a esse respeito é uma mitologia do flamenco, quer dizer, uma seria de  crenças   e dogmas sobre sua origem, criados durante o século 19 e solidificados na  primeira metade do século 20, sem nenhuma documentação e que nos diz que o flamenco era mais ou menos uma misteriosa música trazida da Espanha por um povo não menos enigmático: os ciganos. Isso é totalmente falso. Mas o mais grave disso não é que seja algo vendável e crível fora da Espanha, como souvenir, mas que tradicionalmente é aceito dentro das nossas próprias fronteiras como dogma de fé.

Evidentemente isto é algo que deve ser remediado se queremos colocar o flamenco no mesmo patamar de outras culturas musicais tão importantes como, por exemplo, o Jazz, na qual o rigor histórico e científico contribuíram para o seu prestígio. Foi por essa razão que meu irmão Antonio e eu decidimos assumir a tarefa de escrever um livro no qual figurassem as verdadeira bases do flamenco. Assim nasceu La Llave de la Música Flamenca (Sevilha, 2009), ainda sem tradução no Brasil, um livro que como reza o título, é uma chave não para fechar, mas abrir o caminho para as luzes que devem iluminar a flamencoligía daqui por diante, cimentada no rigor e em provas documentais, para poder tirar o flamenco das garras do mito e da lenda em que se encontra envolvido.

O que de mais importante La Llave da La Musica Flamenca traz é demolir quase todas as idéias comuns e generalizadas sobre o flamenco que se mantém desde o século 19, provando documentalmente que esses conceitos – cuevas, miséria, fogueiras, gitanos, Duende, noitadas, vinho, cante puro e básico, vozes roucas… – são mitos românticos, imagens literárias totalmente falsas.

O leitor ficará altamente surpreendido ao escutar peças espanholas para violão do século 17 que não somente soam com um marcado caráter flamenco como também, algumas delas, muito próximas das sonoridades da moderna musica pop.

Em seu lugar, surge uma nova história, muito mais excitante, variada, heterodoxa e mestiça na qual os principais elementos são o legado musical árabe, e as influências dos negros e hispanoamericanos a partir do século 15. De fato, o poderoso caráter rítmico do flamenco tem origem na África negra, como o samba.

O livro estabelece uma diferença entre o mundo cigano e o andaluz, e situa o primeiro como totalmente inserido na Espanha e seus contextos culturais tradicionais, não como algo separado e distinto, mas como parte do mundo popular.

La Llave da La Musica Flamenca mostra como elementos musicais mais antigos nos quais se pode apreciar pela primeira vez elementos pré-flamencos – ainda que deforma muito sutil e tênue – surgem no ultimo terço do século 15 e começo do 16, em duas formas musicais muito populares, conhecidas como folias e romanesca.

Mas não seria até o principio do século 17 – no inicio do período barroco na Espanha – quando aqueles primitivos elementos e influências florescem com novo e exuberante vigor e personalidade e caráter pré-flamenco muito mais definido. Isso se daria em peças musicais (muitas delas procedentes do mundo afrohispanoamericano) como zarabanda, cacona, Cumbe, zarambeque, jacará e fandango.

O livro contém antigas partituras musicais – muitas delas inéditas – que abarcam desde peças pré-flamencas para guitarra do século 17, impregnadas já de uma sonoridade surpreendentemente próxima do flamenco, até complexas transcrições contemporâneas de cantes flamencos propriamente ditos.

CD de La llave de la musica Flamenca

O livro acompanha um CD, cujo conteúdo se articula da seguinte maneira: em primeiro lugar, precedendo o disco, está uma composição para dois órgãos e dois violinos do Celebre fandango de Luigi Boccherini, composto em 1788. Não é a peça mais antiga entre as publicadas nesta obra, mas é uma homenagem a modalidade flamenca mais antiga de todas, o fandango, em uma das mostras mais conhecidas que desse ar musical chegou até nós. E o fandango, como os autores colocam de maneira documentada na obra muito antes de qualquer outro cante flamenco – aparece pela primeira vez escrito nas partituras para violão barroco em 1705, em um manuscrito do qual os autores publicam o fac-símile e sua transcrição em pentagrama.

A partir da gravação no2, todos os conteúdos do disco seguem em estrita linha cronológica que começa com musica pré-flamenca desde o século 17 (época em que já aparecem muito definidos e consolidados os pré-flamencos) e termina , com uma culminação evolutiva, com seis gravações de flamenco clássico, representado nas vozes de Don Antonio Chacón, La Niña de los Peines, Manuel Vallejo e El Gloria.

Uma das grandes premissas do livro é a gravação discográfica e a publicação da partitura da ântiga Caña Prelamenca que o escritor Serafín Estébanez Calderón menciona e descreve em 1847 em suas Escenas Andaluzas, e que cantariam os lendários cantaores El Fillo e El Planeta.

La Llave de La Musica Flamenca combina o mais estrito rigor musical com um agradável estilo, adotando uma grande variedade de registros de linguagem, que vão desde um tom ascético, científico, quando se trata de falar de algum aspecto técnico musical, até um estilo plenamente literário, as vezes florido e barroco, outras sereno e austero e inclusive irônico e teatral.

Não pense, pois , o leitor que se encontra ante um livro técnico, árido e tedioso, já que, ainda que algumas partes tratam de análises musicais sob um ponto de vista técnico, não são essas partes as mais extensas da obra. Pelo contrario, a maior parte de seu conteúdo está expresso de forma clara, acessível e que diverte.

La Llave de La Musica Flamenca é, ao mesmo tempo, uma obra sobre história, musicologia, sociologia, arte e literatura, na qual, além do tema principal – o flamenco – se tratam brevemente, mas de forma muito aguda outros diversos temas artísticos de interesse na atualidade, como as origens e significação estética da chamada copla ou canción española e também do Reggaeton, como um estilo musical aparentado dos tangos.

Gostaria de terminar agradecendo a minha querida amiga Andressa Rocha a oportunidade ao me permitir escrever essas linhas, assim como também demonstrar a profunda admiração que sinto pelo Brasil, suas pessoas e extraordinária cultura, e ainda maior gratidão e emoção para todos aqueles brasileiros que amam, sentem e praticam, em qualquer de suas modalidades, o flamenco, já que essas pessoas o farão, sem dúvida, enriquecer ainda mais o flamenco e contribuindo para que essa música seja maior e mais admirada. Saudações de Sevilha.

La llave del flamenco

Debo confesar que pocas veces he experimentado una emoción tan profunda como la que me provocó el hecho de descubrir el enorme amor que se profesa hacia el Flamenco en un país tan aparentemente lejano, no solo geográfica sino también culturalmente de España, como es Brasil. A nadie se le escapa que el Flamenco es una manifestación artística de enorme pujanza internacional, que cada vez tiene más adeptos en el mundo, pero en España, la mayor parte de la gente piensa en Japón, Alemania o Francia cuando se trata de poner nombre a países extranjeros enamorados de nuestra cultura en general, y del Flamenco en particular.

Sin embargo, la mayor asignatura pendiente que ha tenido el Flamenco ha sido la de carecer totalmente de rigor científico a la hora de realizar un estudio serio y completo sobre aspectos tan básicos como por ejemplo su Historia. La causa de esto se encuentra en el hecho de que la flamencología (disciplina ésta que oficialmente no ha existido académicamente hasta el año 2004 que se implantó en el Conservatorio Superior de Música de Córdoba) ha estado en manos de poetas, escritores o simples aficionados alejados de la disciplina científica que requiere investigar y establecer conclusiones sobre cualquier materia, siendo la principal consecuencia de todo esto el hecho de que no se pueda hablar de una Historia del Flamenco, ya que lo que se ofrece a este respecto es una Mitología del Flamenco, es decir, una serie de creencias y dogmas sobre su origen, fraguados durante el siglo XIX y solidificados en la primera mitad del XX, sin ninguna documentación que demostrara estas ideas, y que nos decían que el Flamenco era poco más o menos que una misteriosa música traída a España por un no menos enigmático pueblo: Los gitanos. Este es algo totalmente falso. Pero lo más grave de este asunto no es que sea algo vendible y creíble fuera de España, a modo de souvenir, sino que es lo que tradicionalmente se ha venido aceptando dentro de nuestras propias fronteras a modo de dogma de fe.

Evidentemente esto es algo a lo que había que poner remedio si se quería poner al Flamenco a la misma altura de otras culturas musicales tan importantes como por ejemplo el Jazz, en lo que a prestigio y rigor histórico y científico se refiere, y fue esa la razón por la que mi hermano Antonio y yo decidimos acometer la tarea de escribir un libro en donde se establecieran las verdaderas bases del flamenco: La Llave de la Música Flamenca (Sevilla, 2009), un libro que, como reza en su titulo, es una llave no para cerrar, sino para abrir la senda que a todas luces debe tomar la flamencología en adelante, cimentada en el rigor y las pruebas documentales, para poder sacar del flamenco de las tinieblas del mito y la leyenda en las que se encontraba envuelto hasta ahora.

La principal aportación de La Llave de la Música Flamenca consiste en demoler absolutamente casi todas las ideas comunes y generalizadas que sobre el flamenco y sus orígenes se mantienen desde el siglo XIX, probando documentalmente que esos conceptos –cuevas, miseria, fogatas, gitanos, Duende, noche , vino, cantes puros y básicos, voces roncas…- son mitos románticos, imágenes literarias totalmente falsas.

En su lugar, surge una nueva historia, mucho más excitante, variada, heterodoxa y mestiza en la cual los principales elementos son el legado musical árabe, y las influencias negras e hispanoamericanas a partir del siglo XV. De hecho el poderoso carácter rítmico del flamenco tiene un origen negro, como lo tienen todas las músicas del mundo que tienen un manifiesta influencia rítmica de la cultura africana, evidentemente estoy pensando, como todos ustedes sospecharan, en la Samba .

En el libro no se establece diferencia entre el mundo gitano y el andaluz, y se sitúa al mundo gitano como totalmente inserto en España y sus contextos culturales tradicionales, no como algo separado y distinto, sino como una parte más del mundo popular.

La Llave de la Música Flamenca demuestra cómo los elementos musicales más antiguos en los que pueden apreciarse por vez primera rasgos preflamencos –si bien aún de forma muy sutil y tenue- surgen en el último tercio del siglo XV y principios del XVI, en dos formas musicales muy populares, conocidas como las folías y la romanesca.

Pero no sería hasta principios del siglo XVII –a comienzos del Barroco- cuando aquellos primitivos elementos e influencias florecieron con nuevo y exuberante vigor y personalidad, con un carácter preflamenco mucho más definido. Esto se daría en piezas musicales(muchas de ellas procedentes del mundo afrohispanoamericano) como la zarabanda, la chacona, el cumbé, el zarambeque, la jácara y el fandango.

El libro contiene gran cantidad de antiguas partituras musicales –muchas de ellas inéditas- que abarcan desde piezas preflamencas para guitarra del siglo XVII impregnadas ya de una sonoridad sorprendentemente muy cercana al flamenco, hasta complejas transcripciones contemporáneas de cantes flamencos propiamente dichos.

El libro se acompaña con un CD, cuyo contenido se articula de la siguiente manera: En primer lugar, presidiendo el disco, se sitúa un arreglo para dos clavicémbalos y dos violines del célebre fandango de Luigi Boccherini, compuesto en 1788. No es la pieza más antigua de las que se publican en esta obra, pero se sitúa de esta manera como homenaje a la modalidad flamenca más antigua de todas, el fandango, en una de las muestras más conocidas que de este aire musical nos han llegado. Y es que, efectivamente, como los autores ponen de manifiesto de forma documentadísima en su obra, el fandango –muchísimo antes que cualquier otro cante flamenco- aparece por primera escrito vez en tablaturas para guitarra barroca en 1705, en un manuscrito del cual los autores publican el facsímil y su transcripción a pentagrama.

A partir de la grabación nº2, todos los contenidos del disco siguen una estricta línea cronológica que comienza con música preflamenca desde el siglo XVII(época en la que ya aparecen muy definidos y consolidados los rasgos preflamencos) y termina, como una culminación evolutiva, con seis grabaciones de flamenco clásico propiamente dicho, representado en las voces de Don Antonio Chacón, La Niña de los Peines, Manuel Vallejo y el Gloria.

El lector quedará altamente sorprendido al escuchar piezas españolas para guitarra del siglo XVII que no solamente suenan con un marcado carácter flamenco sino incluso, algunas de ellas, muy próximas a las sonoridades de la moderna música pop.

Una de las grandes primicias de La Llave de la Música Flamenca es la grabación discográfica y la publicación de la partitura de la antigua Caña preflamenca que el escritor Serafín Estébanez Calderón menciona y describe en 1847 en sus Escenas Andaluzas, de 1847, y que nadie nunca había oído desde el siglo XIX. Muy probablemente el tipo de Caña que cantarían los legendarios cantaores el Fillo y el Planeta.

La Llave de la Música Flamenca combina el más estricto rigor musical con un agradable estilo, adoptando una gran variedad de registros del lenguaje, que van desde un tono aséptico, científico, cuando se trata de hablar de algún aspecto técnico musical, hasta un estilo plenamente literario, a veces florido y barroco, otras sereno y austero, e incluso irónico y teatral.

No piense, pues, el lector que se encuentra ante un libro técnico, árido y aburrido, ya que, si bien algunas partes del libro que tratan sobre análisis musical son abordadas desde un punto de vista técnico, no son estas partes las más extensas de la obra. Por el contrario, la mayor parte de sus contenidos están expresados de una forma clara, asequible y entretenida.

La Llave de la Música Flamenca es al mismo tiempo una obra sobre historia, musicología, sociología, arte y literatura, en la cual, aparte del tema principal – el flamenco- se tratan, brevemente, pero de forma muy aguda otros diversos temas artísticos de interés en la actualidad, como son el tratar sobre los orígenes y significación estética de la llamada Copla o Canción Española, e incluso del Reggaetón, como un estilo musical moderno emparentado con los tangos.

Quisiera terminar agradeciendo a mi querida amiga Andressa Rocha la oportunidad que me brinda al permitirme escribir estas líneas, así como también mostrando la profunda admiración y el enorme cariño que siento por Brasil, sus gentes y su extraordinaria cultura, y mi mayor gratitud y emoción para todos aquellos brasileños que aman, sienten y practican, en cualquiera de sus modalidades, el Flamenco, ya que estas personas lo que harán, sin lugar a dudas, es enriquecer, aun más si cabe, al Flamenco, y contribuir a que esta música sea todavía más grande y admirada de lo que ya es. Saludos desde Sevilla.

Sobre David Hurtado

David Hurtado é compositor, pianista e flamencólogo de Sevilha. Sobrinho neto do mítico Juan Valderrama e filho de Lola Valderrama, foi pionero, junto com seu irmão Antonio, na moderna Flamencología científica, com publicações chaves como El arte de la escritura musical flamenca (1998), La voz de la tierra (2002) ou sua mais reciente obra La llave de la música flamenca, onde se assentan as bases da verdadera história do flamenco.

There are 5 comments

  1. Flavio Rodrigues

    O David é O CARA!!!! Junto com o seu irmao, escreveram este livro magnifico que esta dando muito pano pra manga aqui na España, em relaçao às origens do flamenco, etc… Vale muito a pena ler esse livro! Abraçao… Flavio Rodrigues.

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