Festival Flamenco de Londres

edição Alejandra Osses

Estrella Morente emociona Londres

Teatro Sadler´s Wells lotado. Estrella Morente abre  a 8a edição do Festival  Flamenco de Londres com uma grande homenagem ao seu pai, o cantaor Enrique Morente, falecido em dezembro passado, e à grandes vozes femininas do flamenco,  como Niña de los Peines, e do mundo, como Nina Simone e Chavela Vargas.

Com um figurino sóbrio, a cantaora granadina estava vestida de preto, com alguns detalhes em branco nos punhos do blazer e no saiote.  Os músicos , também  de preto, se colocaram ao seu redor e entoaram a primeira música. Só vozes, estalos de dedos (pitos) e palmas. “Empieza el llanto de la gitana”, é o lamento de Estrella. Emocionante.

Filha da bailaora Aurora Carbonell, Estrella mostra que sua força não está apenas  na voz, mas também na sua performance. Faz movimentos de braços e mãos  delicados. Quando dança, mostra que trouxe consigo “el duende”.

Na segunda parte do espetáculo,  entra com o cabelo solto, vestida com uma bata de cola vermelha e apresenta uma canção de amor à cidade de  Granada.  Depois de uma hora e meia de show,  ovacionada pela platéia , ela volta e presenteia o público com  uma canção a palo seco, dedicada a seu pai. “Ya no hay pluma ni tintero pa yo escribirle a mi padre”, canta. E emociona.

Israel Galván provoca diferentes emoções em Londres

No segundo dia da temporada flamenca em Londres, Israel Galván mostra porque é a “prata da casa” do Festival.  Único bailaor na programação,   apresenta o seu espetáculo minimalista “La Edad de Oro”  junto  ao cantaor David Lagos e ao guitarrista Alfredo Lagos.

Sapateado incrivelmente rápido e impecável. Seus movimentos são oblíquos , secos e precisos. Usa o corpo como percussão, brinca com a platéia ao tirar sons “batucando” nos seus sapatos e nos  próprios dentes. Ele é divertido, mas, mais que isso, original. Definitivamente, Galván está muito além das novas fronteiras que o flamenco do século XXI aspira alcançar.

O domínio corporal lhe permite explorar movimentos possíveis e inesperados. Israel Galván mantém sempre um detalhe na coreografia em foco.  Nenhum movimento é  gratuito,  nada se repete.  A musicalidade dos seus pés é delicadamente captada.  São dez microfones direcionais bem posicionados apenas para sua performance.

Sério ou brincalhão, Israel se diverte e traz muitas sensações para quem o assiste.   Traz também muitos personagens  para uma apresentação cheia de  imagens.  O bailaor  sabe preencher todo o palco, aproveita cada canto e habita todos os espaços com sua energia e expressividade.

A platéia pede bis. O trio volta ao palco, mas com os papéis trocados. Israel canta, o cantaor toca guitarra e o guitarrista dança, mas de forma debochada, imitando os trejeitos mais marcantes de Israel.  Uma diversão a parte. Tudo a compás  de  buleria – não poderia ser de outra maneira.

Simplicidade e delicadeza no espetáculo de Mercedes Ruiz

Mercedez Ruiz trouxe para Londres  o espetáculo  ‘Baile de Palavra’,  que mostra  um profundo desejo de dançar o flamenco expressando-se cada vez mais,  executando cada vez menos,  e explorando exatamente  os sentimentos . É exatamente esta a preciosidade da sua apresentação. Segundo ela, seu estilo foi forjado nos tradicionais valores do passado, mas sempre busca novos horizontes.

A bailaora é acompanhada por dois cantaores e o guitarrista Santiago Lara, seu marido. O espetáculo é marcado pela simplicidade delicada da bailaora. Seus figurinos são impecáveis, mas ficam em segundo plano quando ela começa a dançar. Quase não se vê muita maquiagem e nem muitos acessórios. Sua verdade está na força dos  movimentos.

O palco da Sala Lilian Baylis Studio  é pequeno e  intimista. Dá para escutar a respiração ofegante da bailaora e cada som do sapateado. Tudo harmoniosamente sincronizado com a música.

A bailaora e professora de flamenco Lucia Caruso, brasileira radicada em Londres, esteve na platéia e se encantou com o baile de Mercedes. “Ela é uma das melhores bailarinas da atualidade. Foi um show sem artifícios, sem recursos e riquíssimo na história do baile. Uma graciosidade  limpa e bem colocada, sem exageros”, finaliza.

Eva encerra o Festival Flamenco de Londres

Ingressos todos vendidos para as três apresentações de Eva Yerbabuena. Ela  encerra as duas semanas do Festival Flamenco de Londres com a casa cheia.  Passaram pelo Sadler´s Wells grandes nomes do cenário flamenco atual  como o guitarrista Tomatito, o cantaor Miguel Poveda, Rocio Molina, o mais novo talento da dança flamenca, entre outros nomes.

Eva levou a Londres toda a intensidade de sua dança e interpretação. Como de costume, não faltam em seu mais novo trabalho “Cuando yo era”  elementos da dramaturgia. O cenário prioriza os tons pastel, porém as cores quentes presentes em alguns elementos  remetem a sentimentos e lembranças da bailaora. Belas imagens são construídas em cada coreografia.

No palco coberto de areia, a presença em um canto de um pote de cerâmica em movimento  junta-se a outros elementos carregados de significado.  Algumas cenas trazem uma certa angustia, mas também humor.. O espetáculo é carregado de simbologia, revelada  através do flamenco. Trata-se de uma história linear em diferentes épocas. A bailaora é acompanhada por seis músicos e três bailarinos que também mostram seus talentos em solos bem elaborados. Um espetáculo   intenso e marcante, que fechou o festival.

Opinão da repórter

Além de grandes apresentações com excelente qualidade de som e luz, sem problemas técnicos, uma das melhores surpresas do Festival Flamenco de Londres são os valores dos ingressos , um pouco caros para os londrinos, mas não há comparação com os preços exorbitantes praticados hoje no Brasil . O valor mais alto chega a ser, aproximadamente, R$ 120,00 (um terço do valor cobrado no Brasil) e o mais barato perto de R$ 30,00, e ainda com espaço reservado para estudantes. Valores acessíveis proporcionaram, conseqüentemente, um maior número pessoas em todo festival.

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