Zorro, O Musical

Dia de ensaio no Teatro das Artes, em São Paulo. Cantorias por todo lado, aquecimento da voz e do corpo, atores concentrados, acordes de violão, toques de cajón, microfones sendo testados, luzes que ascendem e apagam. Ânimo, espera e ansiedade. O movimento na platéia é grande, não de público, mas sim da enorme equipe e elenco imersos no espetáculo ‘Zorro, o Musical’, que estreou este mês.

Roberto Lage em coletiva para a imprensa

O diretor Roberto Lage levanta-se de uma das cadeiras da platéia, pega o microfone e o silêncio impera naquele caos natural do teatro. Ele avisa a equipe qual é a cena a ser passada. Todos se colocam em suas marcações e o ensaio começa.

Foram quatro meses intensos de preparação de atores, cantores e bailarinos. Muitas aulas de canto, atuação, dança e, em especial, de flamenco.

“Conseguimos montar uma equipe de criação muito boa, com talento e profissionalismo. Tivemos uma empatia muito grande”, conta Roberto Lage, diretor convidado que traz na bagagem 48 anos de trabalho dedicados ao teatro.

Lage aceitou a direção do musical por diversos motivos. “A primeira foi pela história fascinante do Zorro, gostosa de contar e que todas as gerações conviveram. O segundo, a boa qualidade do texto e das músicas. É um conjunto de elementos que possibilita fazer um bom trabalho, além de um apelo comercial significativo. A possibilidade deste espetáculo ser um grande sucesso é enorme. E o último fator, decisivo, é que fui diversas vezes convidado para dirigir musicais, mas nunca aceitei porque a maioria era franquia e seria necessário fazer a reprodução perfeita do espetáculo, sem nenhuma criação. E isso não me dá prazer algum em dirigir. Já esta produção comprou os direitos do texto e das músicas e, então, poderia ter a liberdade de criar um espetáculo meu”.

No musical, a condução dos personagens foge um pouco do tradicional. O diretor buscou na memória seus tempos de criança, quando brincava na rua e na fazenda. “O meu Zorro é bem moleque, safado. Procurei fazer um espetáculo mais latino, com essa malandragem brasileira, o gosto pela aventura e pelo risco. O nosso Zorro é cheio de sensualidade, de apelos eróticos, falastrão e o mais humorado possível. Tem algo do meu temperamento que eu queria imprimir, inclusive este jeito brasileiro de encarar a vida”, conta Lage.

É ele quem decide toda a concepção e, a partir disso, outros profissionais começam a trabalhar seguindo suas diretrizes. “Sou apaixonado por teatro. Além das qualidades técnicas, uma das minhas paixões é trabalhar com gente. Ninguém é igual. É necessário saber trabalhar com indivíduos e não se comportar com um e com outro da mesma maneira e querer resultados, existe um procedimento para cada pessoa”.

Por isso, para o diretor, não existe muita diferença entre dirigir bailarinos e atores. São poucos aqueles que cantam, dançam e interpretam. Os atores que participam de musicais têm conhecimentos técnicos para cumprir com algumas exigências, pois possuem instrumentos para isso. Já os bailarinos, muitos nunca haviam feito um trabalho de interpretação. “Tudo o que eu não queria no espetáculo era ‘aquela cara de bailarino’, então tive que fazer um trabalho didático, dar informações sobre os procedimentos cênicos e como se constrói personagens. Como sou pedagogo de formação, sempre utilizei o teatro como um instrumento que permite a cada um refletir sobre si mesmo. Tenho um instrumental técnico para trabalhar com quem tem uma formação exemplar de atuação e também com bailarinos que não tem nenhuma experiência cênica”, complementa o diretor.

Neto de catalães e admirador do flamenco, Roberto Lage preferiu convidar alguém que dominava esta arte, e chamou Jarbas Homem de Mello para coreografar e ser assistente de direção. Posteriormente, o coreógrafo acabou também assumindo o papel do Zorro, revezado com o ator Murilo Rosa durante a temporada. Para o diretor, o flamenco é tão integrado neste espetáculo, que só lhe dá mais prazer em trabalhar. “É um espetáculo que tem uma faixa de público muito ampla e, por isso, tenho que pensar numa estética, numa dinâmica cênica para atender todos os aspectos de um público muito diversificado, e não fechar num determinado gueto”.

Horas diárias e intensas à procura da dança flamenca

Jarbas Homem de Mello como o Zorro

São três significantes funções. Quando está na coxia, esperando seu personagem entrar, Jarbas Homem de Mello está atento ao giro da bailarina, ao cenário que não entrou e à luz que ainda não foi marcada. “Estou completamente realizado. Nunca estive tão envolvido num espetáculo quanto este. Quando não estou no palco, assisto tudo no monitor para ver se está correndo bem”, declara.

Além de atuar, cantar e dançar vários estilos, Jarbas estudou flamenco por 12 anos com a bailarina e coreógrafa Juçara Correa. Por já ter contato com a cultura espanhola e conhecer a história dos ciganos, seu personagem lhe caiu muito bem – e este foi o momento em que pôde colocar “tudo para fora”. “Trouxe todas as minhas referências para este personagem. Coreografei todo o espetáculo e, na verdade, como o Diego de La Vega, o Zorro, não dança muito, inventei um solo no agradecimento para dançar um pouquinho, uma patada de buleria”, diverte-se.

Jarbas convidou Juçara Correa para ser sua assistente e, mesmo seguindo um estilo ‘Broadway’, os dois procuraram dar uma pincelada de flamenco puro. “É um musical nunca feito no Brasil, que adota o flamenco como estilo, porém inserido na linha de teatro Broadway. Tem muita rumba, mas também bulerias e martinete. Tentamos fugir um pouco do padrão americano para colocar o flamenco”, conta.

Entre os bailarinos, apenas quatro tem formação em flamenco, os demais, em jazz e contemporâneo. Por isso, o processo de aprendizagem foi intenso. Para Jarbas, o flamenco é a dança mais linda, porém a mais difícil. Foram quatros horas diárias e intensas de flamenco, com muito trabalho para trazer o “aire”. “Ou você nasce na Espanha ou dança 20 horas por dia para conquistar esta magia. Depois de muito suor, conseguimos um bom resultado. O nosso elenco é especial. São pessoas com muita vontade de aprender – até buscaram aulas fora para se aperfeiçoarem e se apaixonaram pelo flamenco porque é um estilo que pega na alma, vem da terra com energia e, ao mesmo tempo, é muito pessoal”.

No começo, estudaram passos mais simples. Nos “paseos”, por exemplo, o desafio era não sair do “plié”, mantendo a altura e a postura. “A maioria veio do jazz e do sapateado americano e a força destes estilos é voltada para cima. Você flutua, é leve. Já o flamenco é terra, a energia é para baixo e intensa. É necessário permanecer no ‘plié’ para não se machucar. São ritmos e tempos diferentes, difíceis de entender. Também tivemos workshops de palmas e ritmos. Além disso, a coreógrafa de jazz Kátia Barros conseguiu mesclar este estilo tão bem com o jazz que acabou criando uma linguagem especial. Chegar nesta fusão foi o grande prêmio”, afirma Jarbas.

A dança enquanto movimento da vida

A bailaora Roberta Zanelatto | Foto: Fábio Cadôr

Aos oito anos, Roberta Zanellato começou a dançar jazz, estudou dança contemporânea, moderna e até hoje estuda ballet clássico para manter a linha corporal. Conheceu o flamenco há 12 anos. Dá aulas de dança do ventre e flamenco em sua escola em Santo André. Os dias são corridos, muito suor e dedicação. Já se apresentou em tablados e como convidada de grupos de dança flamenca, mas “Zorro, o Musical” é a sua primeira experiência em um grande espetáculo.

Roberta soube do casting através de um amigo. Não esperava ser chamada para a audição. “Foi uma grande surpresa”, afirma. O teste estava dividido em duas partes: dança e canto. “Na primeira parte não fiquei muito nervosa porque era jazz e flamenco. Já na segunda, estava muito tensa porque não nunca havia cantado na minha vida. Apesar da equipe ter me deixado tranqüila, não achei que passaria. Fui sincera e falei: ‘sou bailarina de flamenco, estou aqui para isso, eu não canto. Então, não sei o que vai acontecer’. Levei uma música em português, do filme ‘Aladim’, para apresentar. Passei. No segundo teste tive que cantar um trecho de uma música do Gipsy Kings, fui um pouco mais preparada. Hoje, faço aulas particulares de canto, além de toda a preparação musical que recebi aqui”.

Ela ainda não acredita que conquistou o seu lugar no elenco. “É um sonho realizado, um trabalho maravilhoso. Como eu estava um pouco afastada do jazz, o contato com a Kátia Barros despertou em mim algo que estava adormecido, voltei às minhas raízes e senti mais segurança para fazer o musical”, conta.

O espetáculo exige mais de Roberta do que uma apresentação de dança. “Quando estou no palco preciso atuar o tempo todo, é diferente de quando se entra para dançar e, em seguida, sai. Quando entro, sou uma personagem até a cortina fechar. E isso é espetacular, pois desenvolvo várias técnicas que cabem no meu mundo flamenco. É um musical perfeito para mim, e não tinha idéia que pudesse fazer isso um dia. É diferente de tudo que já fiz”, conta.

Para criar uma cigana, Roberta buscou em si algumas referências e outras que o flamenco lhe trouxe, além de muitos sentimentos. “Tive que me aprofundar mais e conhecer a história dos ciganos para dar mais vida à cena. Não foi tão difícil como imaginava porque o (Roberto) Lage é maravilhoso e consegue tirar isso de dentro de mim. Estou muito segura do que faço, não tenho brancos e nem medo de errar quando estou no palco”.

Não foi só a arte que encantou Roberta, mas também o desafio de aprender técnicas diferentes e saber os limites do seu corpo e suas emoções. Mesmo participando de todos os ensaios e fazendo aulas extras, a bailarina não abandonou a sua escola. “Nos primeiros dois meses eu vinha de ônibus. Acordo às 5 horas da manhã, fico aqui das 9hs às 18hs, saio e vou para Santo André dar aulas. No outro dia, a mesma coisa. Não acredito que até hoje, consegui chegar até aqui sem uma lesão, sempre bem e inteira todos os dias. Tirei uma força de dentro de mim que não sabia que tinha. Chego em casa cansada, mas feliz”, revela.

A experiência no musical trouxe alguns presentes: sua arte mudou e também a forma de ver o mundo. Um novo caminho se abriu, por isso espera que não seja nem o primeiro e nem o seu último trabalho. “Estou com a emoção à flor da pele, não abandonei namorado e nem família, que me apóiam todos os dias. O teatro é mágico, como um sonho. Quando a cortina se fecha, o sonho acaba, mas no outro dia tem tudo de novo. Nunca fiquei tanto tempo trabalhando dentro de um teatro, o dia inteiro. É fascinante e sempre dá um friozinho na barriga. Mas o palco é meu amigo”, finaliza feliz.

Arte com algo a mais

Outra etapa na vida. A bailaora Milene Muñoz, que já morou na Espanha e Japão e participa do grupo Luceros, não para, sempre em busca de novos desafios.

Quando Milene trabalhou no “Parque Espanha” no Japão, um casal de atores que a viu dançar, disse a ela para experimentar o teatro. “Eu era uma clown flamenca, usava uma peruca laranja nos shows de entretenimento. Adorava, me divertia com aquilo que era tão distante do meu mundo. Sempre tive vontade de fazer teatro e essa situação me fez refletir sobre a vida do artista e suas várias facetas. Também entendi que o flamenco era pouco para mim. Para cada trabalho há uma exigência diferente, cada personagem tem sua própria história”, conta.

Milene Muñoz (à dir) se encontrou no teatro | Foto: Fábio Cadôr

Milene seguiu a dica do casal. Procurou por aulas de teatro e canto, parou de dar aulas de dança flamenca e mergulhou na sua busca. “É necessário se preparar, ter muitas referências e ler muito. Com o tempo, reparei que o ponto forte do meu baile é a interpretação – posso ter um bom sapateado, entrar no compasso, ter consciência corporal, mas minha emoção está mesmo na interpretação. Mas, ao mesmo tempo, sentia algo incompleto dentro de mim e não sabia o que era”.

Para ela, a experiência de participar em um musical é completamente nova, um grande aprendizado. A principal diferença deste trabalho que, para ela é o mais completo até agora, é cantar. “Eu nunca cantei, sempre era música através do meu sapateado, agora tenho que englobar esta música dentro de mim. Tive a sorte de cair nas mãos do preparador vocal Thiago Gimenes, que me ensina a entender o canto e isso me incentiva a também entender o cante flamenco”, diverte-se. Segundo ela, é “algo a mais” uma bailaora cantar, no tablado ou nas aulas. Os alunos precisam desta referencia musical – na Andaluzia, em qualquer aula, existe alguém cantarolando uma letrinha.

Milene canta em todos os lugares, seja no carro ou no chuveiro. Segue à risca as orientações de Thiago e também de sua professora particular, Cristina Cândido. “Eles abriram a minha cabeça. Aprendi uma técnica de respiração para cantar que também complementa a forma de respirar na dança. Aprendi a cantar, interpretar e dançar, tudo ao mesmo tempo. E também que, quando colocamos um microfone na testa, temos que ficar quietos na coxia, senão qualquer barulhinho vaza para a platéia e esse silêncio faz parte da nossa concentração”.

A bailaora também fica atenta às direções que Roberto Lage dá aos atores. Sempre procurou estar presente nas leituras de texto para entender melhor os processos. “Tudo é válido. Comecei a fazer teatro com uma certa maturidade, pois não sei se estava preparada anteriormente. Como vivi muito tempo na Espanha, e convivi com muitos gitanos nas juergas, e além do histórico da minha família, tive muitos elementos para montar uma cigana no musical. Durante os ensaios, minha auto-estima voltou, este personagem trouxe um lado muito feminino que estava adormecido em mim. No flamenco a sensualidade é mais comedida e dura, diferente da minha cigana. Vejo neste universo cênico o quanto tenho que aprender”.

Durante a entrevista, Milene foi sincera a ponto de assumir que sua paixão pelo flamenco foi também por vaidade. Mais tarde, percebeu que a arte ia muito além desta preocupação. “Para ser artista precisa ter muitas características, dependendo do papel a interpretar. Eu não passo a emoção apenas através da beleza, mas das minhas expressões. Bonita, feia, destrambelhada, engraçada, triste, alegre, o importante é emocionar a platéia. ‘Zorro, o musical’ me mostrou o canto e o teatro, e só confirmou o que estava buscando. É a confirmação da minha arte, além da vaidade”, diz.

Até mesmo na dança descobriu um novo jeito de se movimentar. Aprendeu com a coreógrafa de jazz Kátia Barros diferentes formas de girar e movimentar seus braços. “Hoje, meus giros estão mais precisos. Nunca havia dançado jazz e quero introduzir alguns elementos nos meus bailes. Buscar uma linguagem própria e fazer meu próprio flamenco. Estou à procura de minha identidade e encontrei o caminho para encontrar movimentos meus e únicos. Cada vez mais quero ser eu, por isso é importante aprender muitas linguagens, para quando chegar o momento desenvolver minha própria arte”.

Além do aprendizado, participar de uma grande produção faz uma enorme diferença ao lhe permitir desenvolver-se mais artisticamente. Também é uma oportunidade para testar sua resistência física e psicológica em se apresentar durante uma longa temporada.

“Estou apaixonada pelo teatro. O flamenco para mim é muito forte, não vou deixá-lo. Comparo minha primeira aula de canto com a minha primeira aula de flamenco com Yara Castro. Em ambas, me identifiquei completamente à primeira vista. Tudo isso me despertou a vontade de fazer meu próprio espetáculo, juntar tudo que vi na vida e representar”, finaliza.

Do flamenco ao pop

Thiago Gomes

A direção musical do espetáculo foi desenhada pelas mãos do maestro e preparador vocal do elenco, Thiago Gimenes. Não são mãos quaisquer, mas de um homem que cresceu na igreja cantando em um coral e escutando música gospel. Dedicado e talentoso, estudou piano clássico, cursou música lírica na Unesp e pós-graduação na Universidade Berklee de música na Califórnia, nas áreas de soul, black e música contemporânea.

Sua missão no musical foi traduzir toda a criação do diretor Roberto Lage para ambientes musicais. “Foram muitas pesquisas para juntar tudo sobre música contemporânea que o público consegue identificar como latina, sem fugir do contexto de época da história do Zorro, porém com uma pitada brasileira. Queria tirar a frieza européia, o lirismo dos espetáculos franceses e londrinos”.

Thiago começou como preparador vocal do elenco. Desde o começo do processo, ouve diariamente oito horas de música. Em um segundo momento, transformou os arranjos das bandas e colocou seu processo criativo em ação. Com a aquisição dos direitos das músicas e letras, o maestro teve liberdade para alinhar as músicas numa linguagem que atendesse ao gosto do público.

Segundo ele, as pessoas irão ao espetáculo para assistir flamenco e ouvir música latina. As músicas do grupo Gipsy King já são conhecidas. Mas Thiago deu-lhe uma roupagem mais moderna, sem perder a linguagem musical e seus conceitos. Como o flamenco não é um estilo conhecido pela grande massa, o maestro selecionou os melhores elementos e misturou-os ao pop. “Não nos limitamos ao universo flamenco. Procurei trabalhar com o inconsciente coletivo, pegando todas as referências pop e de música latina para fazer uma fusão com o flamenco”.

Nas etapas de criação, Thiago usou a liberdade como referência. “A gente segue sempre uma linha muito clássica de espetáculo. Seguimos tudo o que vem escrito e sugerido nos textos. Mas nestes casos, não existe alma, então permiti que os músicos trabalhassem de uma maneira mais livre. Mesmo fazendo o mesmo espetáculo todos os dias, para chegar nesta harmonia passamos por diversos processos e experiências, para ver o público com vontade de levantar e dançar”, diverte-se.

Além de ter o soul como influência, Thiago sempre escutou música latina, como Mercedes Sosa, Tarancón, entre outros. Para ele, são ritmos que possuem a mesma raiz e a força do flamenco. “Quando cheguei aqui e conheci o flamenco, me apaixonei. A liberdade deste estilo me encantou. Sou um maestro que foge desta escola séria, gosto de acrescentar o que é o meu som, que varia de acordo com cada história. Eu ‘grudei’ em todas no elenco que vivem o flamenco e tem essa pulsação, que não possuem o conhecimento técnico da música, um estudo tão aprofundado, mas têm a vivência e é isso que precisamos, para ser de verdade. Na banda tem muitos músicos clássicos, que lêem partitura, mas as figuras chaves são três flamencos, o percussionista Lucas Rueda e dois guitarristas Fernando de Marília e Jeferson Oliveira”, conta animado.

Thiago gravou um cd com 900 músicas para fazer sua “lição de casa”, aprender os ritmos flamencos e escutar desde uma simples sevillanas até o flamenco mais moderno, fusionado ao jazz. Para ele, a fusão de ritmos é uma evolução. “Por isso tem um toque, um calor especial”.

Para construir um espetáculo são tantas as micros evoluções, que Thiago acaba se surpreendendo.“Descobri que, na verdade, o grande talento está na liberdade de pensamento. Permitir um jeito mais solto de tocar. Cada ensaio é uma aula para todos. Eu cresci e vejo que as pessoas também cresceram. Vejo bailarinos de flamenco chegarem sem cantar nada, e hoje cantam com microfone. Fico feliz de ver que eles entenderam tudo o que eu tinha para passar. É um aprendizado de muito tempo e muita dedicação do elenco inteiro. Não tem truque, não tem nada gravado, é tudo ao vivo. Zorro é um musical com uma linguagem flamenca, mas se as pessoas vierem aqui apenas por isso, talvez se decepcionem. A história é o elemento mais forte – é linda, assim como o canto. É a nossa forma musical de contar a vida dos ciganos”, finaliza.

A força musical do cigano

Joaquim, amigo de Zorro é um cigano que toca muito bem sua guitarra flamenca. Para fazer esta personagem, não poderia ser apenas um ator ou só um guitarrista flamenco que não soubesse tocar outros ritmos. Este cigano precisaria tocar sua guitarra andando, cantar e interpretar.

Jeferson aprendeu a tocar e atuar simultaneamente | Foto: Fábio Cadôr

Jeferson Oliveira, guitarrista flamenco e ator, se arriscou neste desafio. Sempre tocou e pesquisou vários ritmos. Economista de formação, admirador de Paco de Lucia, começou a estudar flamenco em 1999.

“Minha maior dificuldade foi tocar e atuar ao mesmo tempo. Como músico, sentava, cruzava a perna e tocava imerso no meu universo sem me preocupar com minha imagem. Depois de entrar numa produção como esta, percebi que a postura é muito importante porque estou em cena e tudo faz parte do espetáculo. Além de tocar também preciso cuidar do meu tônus, estar atento com o que acontece ao redor. Outro desafio foi tocar em pé, para isso uso um dispositivo na guitarra para me dar uma mobilidade maior, andar e tocar ao mesmo tempo”, descreve.

Este é o seu primeiro trabalho como ator e mudou o seu olhar em relação aos espetáculos que assiste: repara na iluminação e no cenário, no posicionamento dos atores no palco, como se comportam, etc. Situações que, como músico, nunca antes havia reparado. “Hoje percebo que toco melhor. A minha preocupação como guitarrista era mostrar uma determinada técnica, e não é apenas isso que emociona o público, mas sim a entrada, uma nota bem tocada, a intenção e o tônus. É a forma como a mensagem será transmitida. Isso foi enriquecedor”.

Para Jeferson, como o flamenco é um estilo difícil de ser tocado e dançado, essa “diferença” acaba polindo muito o ego e vira uma ferramenta para exaltar esse domínio e, conseqüentemente, desprezar os outros estilos. “Neste musical, a riqueza de estilos é imensa. Tem vários elementos como o jazz, canto gregoriano entre outros. É como a vida, composta por muitos momentos”, reflete.

Neto de espanhóis, o músico e ator pôde usar muito de sua bagagem flamenca para compor seu personagem e ajudar na parte musical. A liberdade dada pelo maestro Thiago Gimenes foi essencial neste processo. Num certo momento, quando lhe foi solicitado um cante jondo, optou por tocar uma seguiriya para ambientar uma cena dramática. A música ajudou a compor a cena. Emotivo e profundo, cada acorde flamenco reproduz sensações e dá toda a base necessária. Além dos momentos dramáticos, há momentos de festa com muitas rumbas e bulerias.

“Zorro é um espetáculo totalmente diferente de todos os musicais. Fala muito de justiça, sexo e poder, situações atemporais em qualquer sociedade. É um dos melhores trabalhos que fiz na vida, cresci muito. E, ainda, com o flamenco inserido, que desperta nas pessoas a força que elas têm”.

Superando limites, descobrindo dons

Para conversar, ela tem a voz suave, quase um sussurro. Mas Naíma tem a força na voz quando canta e interpreta a cigana Inês. É ela quem lidera o grupo de ciganos no musical com voz ativa e alegre. “A história do Zorro é linda e emocionante, do prólogo ao final”, descreve.

A cantora Naíma | Foto: Fábio Cadôr

Naíma começou a cantar aos 17 anos numa pequena banda de baile em Porto Alegre. Logo depois, recebeu um convite para tentar a carreira em São Paulo. Em 1998, participou de “Aída”, em 2000 do musical “Cazas de Cazuza”, mas desistiu de trabalhar em musicais por causa da sua dificuldade com a dança. “Quando recebi o convite para fazer o papel de Inês, não sabia que ela dançava. Seria um impedimento se soubesse. Para mim, foi muito difícil porque é algo que realmente não domino, mas depois que aceitei me dediquei muito para fazer o que faço hoje”, lembra-se.

As primeiras semanas de ensaio foram as mais duras. Como não tinha preparação corporal, Naíma teve que se superar. Hoje, até arrisca uns passinhos de flamenco. “As bailaoras Milene (Muñoz) e Roberta (Zanellato) me ajudaram muito com a postura e a mostrar o tônus que o flamenco tem. É uma dança muito difícil. O sapateado e o ritmo são complicados. Já os braços, para mim, são mais fáceis. Se eu ensaiar, faço, mas preciso de mais tempo do que alguém que já tem contato com a dança”, revela.

Apesar de não dançar, o flamenco foi uma experiência nova e importante na vida de Naíma. “Gostaria, quando não estiver mais em cartaz com o musical, de estudar o flamenco e ter contato com essa arte o resto da vida. Eu me apaixonei e me identifiquei com sua força e beleza”.

Para ela, o processo de criação de uma personagem é denso, intenso e mexe muito com os sentimentos e valores perante a vida e as pessoas. “Eu sentia uma evolução interna todos os dias. A personagem exigia mais de mim, não era apenas cantar. Apesar das minhas limitações, já era tarde – estava apaixonada pela Inês, pelo espetáculo e pelo flamenco. Tive que arregaçar as mangas e fazer o meu melhor”.

Naíma é disciplinada. Pesquisou sobre a cultura cigana e sempre que pode tira dúvidas com Milene e Roberta. Essa dificuldade trouxe superação e amizade. Milene e Naíma se ajudaram muito. A cantora, às vezes, ia para a casa da bailaora estudar. “Milene começou do zero comigo, me deu a noção básica do flamenco. Começamos pela postura de braços, posição do cotovelo”, recorda-se.

“Mesmo sem muita intimidade, Naíma pediu a minha ajuda. Mas era uma bobagem porque ela já tinha uma pegada flamenca e seu olhar é muito intenso. Nesse dia, ela também me ajudou, ficou ao meu lado para eu entender a nota que ela estava cantando. Era uma troca muito linda de admirações, porque cada um no elenco tem o seu talento e a sua força”, conta Milene Muñoz.

O trabalho da cantora no musical junta a força de três elementos: a sua delicadeza, a vitalidade da personagem Inês e a força do flamenco. Estes três elementos dão o tônus e a veracidade que a história precisa. “Eu não sabia que o flamenco era tão forte. Achava uma dança bonita, mas não imaginava que exigia tanto das personalidades das pessoas, ninguém precisa dançar igual, de forma sistemática. Cada um coloca suas próprias singularidades. Admiro o jogo das saias de Milene, que é encantador, e os braços de Roberta, que são impressionantes. Usar esta força do flamenco na minha personagem é muito especial e me deixou com uma postura linda. A equipe é maravilhosa e unida e a dança nos aproximou ainda mais. Talvez, se eu não precisasse dançar, tivesse um pouco de distanciamento”, conta.

Nas suas leituras, Naíma encontrou coisas bonitas sobre os ciganos. É um povo que se comporta de maneira peculiar e valoriza a liberdade acima de tudo. O respeito pela individualidade possibilita trazer um “aire” especial. “Li uma passagem que resume para mim tudo o que Inês precisa, e tudo o que o espetáculo representa na vida de todos os envolvidos neste projeto: ‘O céu é meu teto, o chão minha pátria, a liberdade minha religião’. A personagem trouxe de volta a minha alegria”, diz.

There is one comment

  1. Clara Ballio

    Sensacional! Roberto Lage sabe como deixar os espectadores sem fôlego. Tive o prazer de recebe-lo em minha cidade (pindamonhangaba) num festival de teatro, um crítico sério e competente, assim como Calixto. Parabéns pelo trabalho.

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