Turnê do grupo paulista Luceros

É gostoso conversar com artistas que levam o sonho e a vontade – muita vontade – de divulgar o flamenco e o diálogo entre culturas. Já imaginou o som de uma sanfona em coreografias flamencas? E tecidos de chita nos vestidos de baile? O grupo Luceros, formado por Alê Kalaf, André Pimentel, Milene Muñoz e Priscila Grassi, em parceria com excelentes músicos e sob a direção do acordeonista Toninho Ferragutti, criaram um espetáculo que traz na bagagem a profundidade do flamenco e a leveza dos ritmos brasileiros.

 

Grupo Luceros

Foto: Eduardo Fahl

Há quatro anos, o Luceros montou uma coreografia baseada na música “A sombra da Asa Branca”, de Toninho Ferragutti e nem imaginava que essa era apenas a semente de algo bem maior que viria posteriormente. A vontade de fazer um espetáculo inteiro inspirado pela música do acordeonista foi crescendo e, na metade de 2009, o grupo começou a montar um projeto maior. Era a principio o improviso: descalços, os bailaores experimentavam o forró de Ferragutti.

Numa tarde, já com o prazo apertado, o grupo organizou todo o material que tinha e mandou um projeto para a Secretaria de Cultura de São Paulo. Foi o empurrão que faltava . Eles foram aprovados para se apresentarem no Circuito Cultural Paulista. Era apenas o começo de muitas histórias que viriam.

As apresentações começaram no dia 5 de março deste ano. No próximo domingo, dia 16 de maio, estarão em São Paulo na Casa das Rosas durante a Virada Cultural, depois seguirão para mais algumas cidades do interior. (vide programação)

André Pimentel, Priscila Grassi, Milene Muñoz e Ale Kalaf

Luceros: André Pimentel, Priscila Grassi, Milene Muñoz e Ale Kalaf | Foto: André Casiuch

“Quando fomos aprovados, ficamos empolgados e nervosos ao mesmo tempo, porque somos perfeccionistas. A gente estipulou um cronograma, cada um coreografou uma parte e fizemos uma gestão coletiva”, conta o bailaor André Pimentel.

O espetáculo é divido em duas partes. “A primeira é o flamenco tradicional , em que mostramos ao público o que é o flamenco, aquilo que nos inspira com toda sua cultura, os bailes e as estruturas que a mãe Espanha nos deu e nos manda. Já na segunda parte tudo muda, entra o forró de Ferragutti. O músico faz uma introdução para ambientar a platéia do que vem a seguir. O figurino e a música já não são os mesmos, mas a dança flamenca continua em outro contexto”, descreve André.

“No começo, achamos que as pessoas iam estranhar, em vez de gostar, mas quando chegamos nas cidades vimos o público animado e percebemos que a música brasileira é mais fácil de tocá-las”, conta Priscila Grassi, bailaora.

Tudo ao vivo. Além dos bailaores do grupo Luceros, a equipe é formada por Beto Angerosa na percussão, Conrado Greimer na guitarra, Márcio Bonefón no baixo e canto e o arcodeonista Toninho Ferragutti. Na produção Márcia Caldeira e Pipo como técnico de áudio. “É um projeto que dá vontade de apostar, vejo uma longa perspectiva. Tem uma semente cheia de conteúdo. E ainda temos a intenção de melhorar artisticamente, elaborar melhor esta produção e todo o arsenal que envolve este projeto e, futuramente, pensar num circuito amplo de espetáculos. Diferente de qualquer projeto mais flamenco que fizemos até agora. Eu acho fantástica essa qualidade de poder dispor a multiplicidade de informações e linguagens musicais”, conta o percussionista Beto Angerosa.

Uma nova forma de bailar flamenco

“Há muito tempo buscávamos uma fórmula para fazer uma difusão musical e onde a dança também pudesse encontrar uma nova forma de expressão, tendo uma base de flamenco. O Toninho chegou com um material bonito e muito inspirador e começou esse projeto que veio ao encontro da improvisação do bailarino com sua música. Juntamos esse time e deu certo. Nosso compromisso não é importar bailes de grandes mestres da Espanha, mas buscar e fazer nossa forma de dança e música. Neste sentido teríamos muito mais o que mostrar, não só no Brasil como na Espanha”, diz o percussionista Beto Angerosa.

Bailarinos do Luceros e o percussionista Beto Angerosa

Bailarinos do Luceros e o percussionista Beto Angerosa | Foto: André Casiuch

Do ponto de vista do baile, Priscila Grassi também concorda com Beto: “O flamenco é lindo como expressão, minha vontade é que seja, assim como o ballet, mais do que uma dança de um cultura. Que não seja vínculado apenas à paella, castanhola, bola e babado. Não é uma transgressão, mas algo novo”.

André Pimentel também buscava por criatividade e inovações quando criaram o show. “Por que não podemos montar uma coreografia flamenca com Bach ou mesmo forró, como os grupos de ballet contemporâneo fazem? Na Espanha existem alguns que quebram através de misturas e outros que seguem a tradição. Isso ainda é muito complicado lá, imagina aqui. Chegou um momento em que não dá mais para fazer o que todo mundo faz, queremos fazer algo diferente”.

O artista é responsável por sua obra. Cria e produz. “Somos fazedores de arte, faz parte da nossa função. Eu me considero um bom professor porque gosto de dar aula. E ao mesmo tempo, é muito prazeroso ser um canal da cultura flamenca. É uma sensação de dever cumprido. Sair da sala de aula, levar uma ideia maior e uma dimensão diferente para as pessoas que assistem o espetáculo ao vivo. É satisfatório, preenche nossa intenção de ser artista por completo. Além de sermos úteis, deixamos uma impressão, um pouco de nós em nossa obra de arte”, reflete André.

O show melhora a cada dia

Para os bailaores, a experiência de viajar pelo interior é única. As pessoas se aproximam e, conseqüentemente, o grupo fica mais coeso em cena. A rotina é puxada: saem cedo de São Paulo, chegam ao destino depois de algumas horas, passam no hotel, deixam as malas, ou às vezes, quando não dá tempo, vão direto para o lugar da apresentação. Nem sempre têm tempo para ensaiar. Marcam palco, luz, fazem passagem de som, se apresentam e voltam para o hotel, descansam e acordam cedo no dia seguinte para voltarem a São Paulo. E, ainda durante a semana, ensaiam duas vezes para se prepararem para o próximo show.

Luceros Foto: André CasiuchDurante as viagens, conversar sobre as apresentações já virou rotina. “O grupo se fortalece a cada dia e o show fica mais gostoso, porque no palco essa cumplicidade transparece. O legal é juntar todo mundo num grande caldeirão e deixar cozinhando, sai um caldo bom”, diverte-se Priscila. “A experiência está sendo ótima, nunca é o mesmo show porque sempre melhoramos o que não estava bom. É algo vivo, não mudamos o repertório, mas alguns detalhes que não funcionam. Não interessa onde vamos nos apresentar, sempre daremos o melhor que pudermos”, descreve André.

Para eles, agradar ao público não é fácil. É preciso usar a emoção e não somente a técnica para conseguirem transmitir as sensações no palco. Apesar deste cuidado com o público, a receptividade nas cidades é calorosa, todas as apresentações são lotadas. E a maioria das pessoas já possuem alguma informação sobre o flamenco.

Durantes as aulas em oficinas, o guitarrista Conrado encontrou muitos alunos que já sabiam os termos musicais e ritmos que iriam aprender. “Hoje a distância está cada vez menor. A internet é fundamental neste processo, as pessoas se atualizam e aprendem cada vez mais e mais rápido. Por isso, é motivante viajar com um grupo, existem várias frentes de trabalho e divulgação”.

Impressões de uma paulista

A individualidade costumeira dos paulistanos se dilui quando se conectam com outros estilos de vida. Para André, as pessoas de São Paulo são muito sozinhas e independentes. No interior a dinâmica é diferente, existe uma preocupação e um interesse maior pelo outro.

Priscila nasceu, foi criada em pequenas cidades do estado de São Paulo e já sabe o que vai encontrar em suas viagens. É interessante o olhar de uma bailaora que volta à suas raízes, agora como artista e levando uma cultura, até então desconhecida, por meio deste projeto itinerante. Na sua época de estudante, o acesso a peças de teatros e espetáculos de dança era mais difícil do que hoje. Atualmente, quando o grupo Luceros chega a uma cidade, já existe um público à espera, porque o espetáculo já foi divulgado e também porque passaram outros artistas antes deles.

Priscila Grassi (à frente) com Milene e Ale Kalaf ao fundo

Priscila Grassi (à frente) com Milene Muñoz e Ale Kalaf (ao fundo) | Foto: Eduardo Fahl

“Quando eu chego, sei o que vou encontrar: pessoas sedentas, porque eu era essa pessoa sedenta. Elas sabem mais do que eu quando morava no interior. Antigamente acontecia um espetáculo por ano, hoje acontecem dez. Meu coração chega primeiro querendo ensinar tudo o que eu queria saber. As pessoas querem aprender, mas também tem coisas para ensinar. O acesso a cultura é menor porque é mais longe fisicamente, mas a vontade nunca foi menor por causa disso”, conta Priscila.

A simbiose entre Luceros e Ferragutti

“Ele foi generoso em participar desta loucura”, brinca Pri Grassi sobre o músico Toninho Ferraguchi. “Viu a primeira coreografia e gostou. Comprou a ideia e chamou os músicos para participarem. Então se formou uma cadeia em volta desta vontade de montar um espetáculo ao redor da sua música”, conta.

Os músicos Conrado Gmeiner e Márcio Bonefon: novas perspectivas musicais

Os músicos Conrado Gmeiner e Márcio Bonefon: novas perspectivas musicais

Segundo Angerosa, Toninho Ferragutti é um dos maiores compositores da música instrumental brasileira e conhecido internacionalmente. Ele compôs músicas para o grupo e participou deste projeto de forma intensa. “A linguagem da dança continua sendo o flamenco. A proximidade com a música brasileira é a parte rítmica e expressiva e ainda tem a presença do violão flamenco. As intenções e a cor das músicas brasileiras e flamencas são bem diferentes. No flamenco a dor é assumida de uma maneira visceral, tudo muito denso. Já no Brasil, a dor é motivo de festa, de riso. O samba nasce da dor e, de alguma maneira, o objetivo é dar a volta por cima. São perspectivas distintas”, descreve Angerosa.

Conrado conta que a experiência é totalmente nova. A guitarra flamenca é muito diferente do violão brasileiro. Executar o instrumento de outra maneira é um desafio e faz parte deste processo. “Só o fato de você acompanhar e criar a música dentro de um baile que não conhece, já é um aprendizado. É legal acompanhar a partitura e descobrir como funcionam as músicas brasileiras, já que não as toco com freqüência”, diz o violonista.

“Dançar a música brasileira é muito leve, mesmo que dance flamenco, o corpo recebe a música de outra forma. Sempre gosto de escolher repertórios diferentes, ter uma bagagem brasileira nos meus espetáculos de flamenco. A arte é tão infinita e por que não usar a música brasileira? É um outro espaço dentro da gente. O artista tem infinitas possibilidades”, afirma André.

Um pouquinho sobre Ferragutti

Toninho FerraguttiToninho Ferragutti é leve como a música que toca, dá boas gargalhas ao contar suas aventuras e reflexões. Interiorano de São Paulo, da cidade de Socorro e descendente de italianos. Veio do sítio, um lugar tranquilo e bem diferente da realidade que vive hoje: agenda atribulada, shows, gravações e trabalhos com aqueles que eram seus ídolos. Toca com Maria Bethânia, Zizi Possi, Gilberto Gil, Dominguinhos e outros grandes nomes da música popular brasileira.

O arcodeonista tem uma ligação forte com a música universal. Sempre ouviu músicas de todos os lugares: da América Latina ao flamenco de Paco de Lucia e Camarón. E não é a primeira vez que toca e compõe para um grupo de dança. Encantou-se com o projeto do Luceros por diversas razões, uma delas foi sua identificação com a solidão de dançar flamenco no Brasil. “Dançar flamenco aqui não é fácil. Somos um país novo, de imigrantes, mas um país que tem uma alegria diferente, uma alegria que é nossa”, reflete Ferragutti.

Outra razão para se juntar ao grupo foi ter o mesmo sentimento em fazer um caminho que fosse resultado de um encontro entre a música brasileira e a flamenca, numa linguagem mais próxima ao brasileiro.

Os encontros de improvisação com o grupo Luceros eram uma grande brincadeira. O espetáculo ainda está em processo de formação. “Eu crio muito ao ver alguém improvisar. Para mim, é muito inspirador, especialmente a dança. Ter promovido esse encontro fez com que surgissem pequenas células melódicas que, certamente, se estivesse em casa sozinho criando, não aconteceria. É lógico que tem todo um longo trabalho depois, mas a energia principal veio destes encontros”, conta. Existe a vontade de produzir um cd com essas músicas inéditas e registrar o trabalho. Além de fazer um espetáculo maior. Mas para Toninho é importante ter paciência. “Eu toco e eles improvisam, é tão bonito. Eles são maravilhosos, têm experiência e querem fazer bem. Mas parecem não se dar conta do que possuem. É preciso assumir suas grandezas e fraquezas, e fazer”.

Mesmo as limitações de tempo e disponibilidade entre os componentes do grupo e os músicos, não os impedem de realizar. “A palavra de ordem é fazer com carinho, é uma brincadeira levada a sério. A criação não tem idade, não tem limite. Não significa que não tivemos esforço, treino ou dedicação, mas botamos fé. Por isso, esse encontro está sendo importante para refletir,” finaliza Toninho Ferragutti.

Programação

Sao Paulo: 16 de maio
Horário: 13h Local: Casa das rosas – Av. Paulista, 37
Sao José dos Campos: 22 de maio
Horário: 20h30 Local: Teatro Municipal
Caraguatatuba: 23 de maio
Horário: 14h30 Local: Teatro Mário Covas

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