Entrevista com Carmen Talegona

Quando pisou no palco do teatro Gazeta, em São Paulo, no ano de 2007, onde se apresentou a convite do Festival Internacional de Flamenco de São José dos Campos, Carmen La Talegona impressionou o público com a velocidade espantosa do seu sapateado, a força e a precisão nos movimentos. Entrega total no palco, total generosidade fora dele. Na sala de aula, Carmen preocupa-se com os alunos, para que todos aprendam.

Nascida em Córdoba, ela é a única bailaora de uma importante família de cantaores na Espanha- sobrinha de Maria “La Talegona”, reconhecida saetera, e do cantaor Talegón de Córdoba, que já esteve no Brasil em duas ocasiões, também a convite da produção do Festival. Aos 14 anos já dividia o palco com cantaores como La Macanita, José Mercé, Chano Lobato, El Pele e Enrique Morente. Entre os bailaores e coreógrafos com quem já trabalhou estão Cristóbal Reyes, Juan Andrés Maya, Eli “La Truco”, Rafael Amargo, José Maya, Inmaculada Ortega e Miguel Cañas.

Fã de música brasileira, desde pequena gostava de ouvir o “Rei” Roberto Carlos. “Eu adoro”, diz. “Há muitos artistas maravilhosos no Brasil. Como se chama aquele cantor que gravou junto com Paco de Lucia? É incrível como ele canta…” – ela se refere a Djavan, que em 1989 gravou “Oceano”, com a participação do grande violonista flamenco Paco de Lucia.

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Carmen em uma de suas passagens por Porto Alegre/RS

Em meio a tantas viagens, shows, ensaios e montagens coreográficas, algumas de suas preferências ficam em segundo plano – como ler. “Já não tenho tempo”, conta. Mas sempre encontra um tempinho para colocar em dia o seu perfil no Orkut ou Facebook. “A tecnologia está na ordem do dia e há muitas coisas que nós, artistas, só conseguimos fazer por meio da Internet”.

Como dar entrevistas, por exemplo. Acompanhe abaixo os principais trechos desta conversa exclusiva com Flamenco Brasil.

Flamenco Brasil – É muito grande a responsabilidade de carregar o nome “Talegona”? O fato de pertencer a uma família tradicional no flamenco torna o seu compromisso com esta arte mais intenso?
Talegona – Na verdade é uma enorme responsabilidade. Quando eu tinha apenas 11 anos, minha tia Talegona disse à família: esta menina promete e levará nosso nome. Antes de morrer, ao receber uma homenagem ela me disse – “este nome da família é para a eternidade”. Uffff… Que peso enorme ela me deixou! – que em paz descanse. Por um lado, é bom ser a única bailaora em uma família onde todos são cantaores, assim não há comparações. É também uma grande responsabilidade e um orgulho enorme!

FB – Você acredita que está se perdendo o interesse pelo flamenco mais antigo?
T – Não, não acredito que esteja se perdendo. Há muita gente que gosta tanto do flamenco que continua pesquisando e revivendo coisas antigas. Acredito que precisamos escutar mais os cantes de antes, pois está se perdendo um pouco a raiz. Não podemos nos esquecer dos nossos antepassados e o flamenco é tão vasto que nunca se aprende tudo. É uma aprendizagem que não tem fim.

FB – Desde pequena você dança em palcos e tablados. Também passou por um conservatório, em Córdoba, onde estudou dança espanhola – isto é, você viveu tanto a prática como a teoria. Das duas, o que é mais importante para o flamenco? Ambas?
T – Com apenas 11 anos entrei para um conservatório de dança e arte dramática. Sim, para dançar é importante enriquecer-se com tudo o que a vida nos dá, de tudo e de todos se aprende. E cabe a cada um aplicar ou manifestar conforme aquilo que sinta.

FB – Você já esteve em diferentes países, como Grécia, Holanda, Japão e Inglaterra. O que tem o Brasil que os demais países não têm?
T – O Brasil é uma terra que tem tanta magia, força e energia! Não sei, quando estou ali fico arrepiada, adoro essa terra e as pessoas são tão doces, amáveis e respeitosas. Além disso, há muitos admiradores e entusiastas do flamenco. No Brasil, o flamenco está em um nível muito bom, com
artistas muito bons. As pessoas perguntam, querem saber tudo.

FB – Considero você uma das professoras mais generosas que já vi. Para ser uma boa maestra, o que é necessário?
T – Para ser uma boa professora é preciso dedicar-se muito a esta arte, ter carinho, admiração, respeito e, claro, humildade.

FB – No palco você aparenta ter muito mais idade do que quando está fora dele. O flamenco envelhece? Por quê?
T – Sim, o flamenco nos envelhece. Os artistas são como o meu signo zodiacal – podemos ser duas pessoas: uma manifesta o que sente, a outra quando está fora (do palco) diz: isso é o que eu faço? Eu acredito que quando dançamos, realmente, vamos a outra dimensão, sentimos e fazemos aquilo que, se estivéssemos em nós mesmos, não seriamos capazes de fazer.

FB – Para terminar, vamos fazer um ping-pong: lunares ou babados?
T – Os dois: lunares e babados.
FB – Madri ou Córdoba?
T – Madri possui a metade do meu coração, pois me recebeu de braços abertos. Córdoba, a terra onde nasci, tem a outra metade do meu coração.
FB – Castanholas ou abanico?
T – Castanholas.
FB – Um homem charmoso?
T – O nosso Antonio Banderas.
FB – Um perfume?
T – Giorgio Beverly Hills.
FB – Se não Fosse bailaora, seria…?
T – Decoradora.
FB – O taconeo é…?
T – Paixão.

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