O dono da voz

O Festival Internacional de Flamenco de S. José dos Campos chegou ao fim, mas ainda faltava ao Flamenco Brasil falar sobre um dos elementos que constitui a base e a origem desta arte: o cante. E ninguém melhor para abordar esta questão que Pedro Obregón, cantaor convidado para esta edição do Festival.

rostoNossa reportagem conversou com Pedro em um café na região da Paulista, dois dias após a apresentação inesquecível no teatro Gazeta do espetáculo “Simplemente Flamenco”, e no mesmo dia em que se apresentaria no Guitarrísimo, evento promovido pelo Instituto Cervantes, como convidado especial do guitarrista Flávio Rodrigues, juntamente com a bailaora Concha Jareño. De havaianas, bermudas, camiseta e muito à vontade, Pedro saboreou uma xícara de chá verde enquanto respondia com simpatia e tranqüilidade a todas as nossas perguntas. Na hora das fotos, revelou sua timidez, mas reagiu bem aos cliques da publicitária e colaboradora Débora Ochoa.

maoPedro Obregón herdou a vocação para o cante tanto do lado do pai, como da mãe. Se não fosse cantaor, disse que seria carpinteiro… ou astronauta! Brincadeiras à parte, desde menino já sabia que seria cantaor. Quando a família saia para passear, fechava todas as portas e janelas e passava horas cantando, até que um dia, foi delatado pela vizinha à sua mãe. “Você canta, Pedro?”, perguntou-lhe a mãe. Ele nem piscou: “Não, claro que não!”. Hoje, pela qualidade de sua voz, domínio do compasso e conhecimento dos ritmos é preferido por muitos profissionais do baile na Espanha.

“Não posso reclamar”, diz. “Tenho um bom trabalho no conservatório (ele canta em aulas de dança flamenca). Além disso, o baile é o que nos sustenta, porque o cante, por si só, tem pouco espaço. As peñas são insuficientes e existe uma fila interminável de cantaores. Raros são os que conseguem trabalhar bem. É preciso batalhar muito”.

Ele não tem preferência por nenhum palo – quem o viu cantar sabe que é um privilegiado, pois “le hace a todo”: fandangos, siguiriyas, tangos, tonas, soleás, malagueñas – todos os cantes são grandes na voz de Pedro Obregón. Para ele, cada qual tem a sua dificuldade e a sua beleza. O mesmo acontece quando indagado sobre o seu cantaor preferido: para cada palo há uma série de cantaores que gosta de ouvir, e de quem aprende.

flavio_pedro_02_bx

Obregón durante o espetáculo Guitarríssimo em São Paulo com Flávio Rodrigues | Foto: Débora Ochoa

Pedro já voltou para a Espanha, mas em breve fará as malas novamente. Em novembro, faz turnê pelo Japão, junto ao guitarrista Chicuelo. Gostaria de retornar ao Brasil? “Adoraria voltar, gostei muito daqui, as pessoas são muito amáveis”. Além da simpatia do brasileiro, Pedro aprovou o pão de queijo, a caipirinha e a nossa feijoada – “increíble”, definiu.

Torcedor do Real Madrid, ele também gosta de música brasileira, e seus preferidos são Djavan e Elis Regina. Jovem, com apenas 32 anos, Pedro carrega na alma a sabedoria de quem já viveu muito – saber não somente imposto pela vida, mas pelas próprias vivências que o flamenco traz. Acompanhe os principais momentos desta entrevista.

 

“…que Córdoba recuerda un viejo sueño…” (Cd Sueño Flamenco, Alegrias de Córdoba – Puente de San Rafael)

Sobre Córdoba, Peñas e Tablados

Uma vez me disseram que em Córdoba não há ambiente para o flamenco. Pergunto: não é ao contrário, já que a cidade possui um dos mais importantes festivais flamencos, o Festival de la Guitarra? Qual é, então, a importância de Córdoba hoje no cenário flamenco?
Córdoba tem hoje o Festival de la Guitarra e o Concurso Nacional de Arte Flamenco, de onde saíram nomes muito importantes, como Fosforito e (Antonio) Mairena. Chano Lobato costumava dizer que em Córdoba havia o maior número de fãs do cante que já tinha visto na Espanha, talvez porque a cidade está localizada no eixo da Andaluzia, justamente no centro da região. É como se recebesse influências de todos os lados, como ser a arte não tivesse por onde fugir. Córdoba tem tanta importância no mapa flamenco como tem as províncias de Granada, Sevilha ou Cádiz.

flavio_concha_pedro_02_bx

Com Flávio Rodrigues e Concha Jareño | Foto: Débora Ochoa

Existem tantos tablados em Córdoba como em outros lugares?
Em Córdoba, por ser uma cidade menor que as outras, talvez não haja tanto ambiente para os tablados, mas existem os festivais. Além disso, é uma das províncias onde existe o maior número de peñas. As peñas flamencas fazem um trabalho importantíssimo em relação ao cante, pois realizam festivais, como o que acontece em minha cidade natal, Fernán Nuñes, na Peña Flamenca “El Mirabrás”. Há uma série de peñas que são muito importantes e respeitadas no panorama flamenco, que têm feito um trabalho vital.

Como se define uma peña?
Uma peña, como eu a vivi, é um ponto de encontro onde os flamencos se reúnem para cantar, beber una copa – como é costume na Andaluzia -, falar de futebol, de touros, sobre os problemas com a mulher em casa e, no final, sempre se termina cantando: um canta por fandangos, outro por malagueñas, e assim vai. Também estão os recitais, que são mais formais, quando se contrata um cantaor, as pessoas vão e assistem. É nas peñas que se conversa sobre o cante, existe uma troca muito grande de conhecimentos e informações.

“No le preguntes al viento, que dirección va a tomar…” (Cd Sueño Flamenco, Verdial de Lucena y Zángano de Puente Genil – Al viento)

Sobre cante e cantaores

No cante, tanto quanto na guitarra (violão flamenco) como no baile (dança), houve uma evolução? Hoje se canta diferente de como se cantava no início do século XX?
Acredito que o cante seja, talvez, o que há de mais difícil no flamenco. A guitarra evoluiu e o baile também. Mas o cante ficou um pouco mais primitivo. Talvez, como a guitarra evoluiu e lhe deu outros acordes, o cante hoje soa de outra maneira. Mas ao se cantar por soleá, se canta por soleá! O cante tem evoluído menos. A razão? Porque é muito difícil. Talvez, um dos cantaores mais recentes que tem renovado o cante, seja Enrique Morente. Mas me parece que o cante ficou quase como nasceu. Hoje, podemos cantar melhor tecnicamente, ritmicamente, mas é mais difícil que evolua. É muito complexo.

Você diz que gosta de todos os tipos de cante, que não tem preferências. Mas há algum que as pessoas te peçam, justamente num dia sem tanta inspiração, e você pense…joder!
(Risos) Sempre me pedem, principalmente quando vou para minha terra natal, as alegrías de Córdoba. Eu as gravei no meu disco solo (Sueño Flamenco) de uma forma inovadora – dei às alegrías um caráter mais moderno. Acabamos fazendo uma brincadeira – a guitarra soa de outra maneira, os arranjos fazem com que o cante saia um pouco diferente, mas se tirarmos tudo isso, fica o cante, apenas com outra voz. Naquela época, quando gravamos essas alegrías, quase ninguém mais gravava esse tipo de cante. Hoje não, as pessoas voltaram a cantar esse palo. Este é o cante que costumam me pedir, mas não tenho nenhum em especial.

Qual é a diferença entre as alegrias de Córdoba para as de Cádiz, por exemplo?
A melodia e o ritmo com um pouco mais de cadência, mais lento. Os cantes de Córdoba se definem pelo ritmo mais lento, mais templado, relaxado. É a única diferença e, claro, a melodia da letra. (Pedro canta) “Preguntale al platero, platero, platero
que cuanto vale, que cuanto vale…”- se você ouve isso, já sabe de que melodia se trata.
Ou então, se você ouvir: “tirititran tran tran…”, logo identifica que é uma alegría.

Durante palestra no Instituto Cervantes, você disse que aprendeu a cantar ainda criança. Afinal, como ser aprende o cante? É possível também ensiná-lo?
Sim, é possível ensinar, se você tiver capacidade para tal, mas eu acredito que o flamenco é muito autodidata. Claro que é preciso aprender com as pessoas, ouvir muito os maestros, principalmente os antigos. Seria interessante que no Brasil existissem mais tablados, porque aprendemos muito em cena, ouvindo um cantaor. Eu, por exemplo, ouço alguém cantar e digo, “que letra bacana, como se canta isso?”. Aprendemos também dessa forma. Mas tem que vir da própria pessoa, ela é quem deve procurar ouvir os discos clássicos, os cantaores antigos. Por exemplo, na soleá, Mairena, Niña de los Peines, Manuel Torres; na malagueña, Juan Varea, (Antonio) Chacón, e ouvi-los, se interessar, estudar e aprender. No meu caso, já ouvi músicos dizerem que tenho uma voz muito colocada, limpa. Mas aprendi sozinho a colocá-la, simplesmente sai assim… (rs). Não tenho conhecimento de técnica, é algo que gostaria de estudar, realmente. Isso está nos meus planos.

Verdade ou mentira: diz a lenda que o cantaor flamenco tem essa voz porque ele bebe e fuma muito.
Isso é mentira. Cada qual aprende e faz a sua técnica. Tem gente que tem a voz mais colocada, outros menos, alguns cantam mais com a garganta, cada um tem a sua forma. Tudo depende da condição de cada um.

Qual é a sua opinião a respeito da fusão, das influências de outros ritmos no flamenco? Você acredita que isso pode modificar a forma de cantar, que pode se perder o aire mais primitivo do cante?
Acredito que tudo tem sempre que ser feito com muito tato, com bom gosto, de maneira profunda e com pureza. Eu concordo com as fusões, e que todas as músicas podem acabar uma influenciando a outra, uma enriquecendo a outra, desde que seja feito com critério e bom senso. Eu acredito que a fusão não prejudica o cante, porque o flamenco é uma música viva – o que nunca pode ser perder é o seu caráter flamenco. Você pode fazer uma nota porque se ouve melhor assim, e enriquecê-la. O flamenco já nasceu influenciado por vários tipos de música, a música árabe, a judia, a andaluza. Talvez, por isso mesmo, seja um tipo de música que se abre para as demais, e pode se fusionar com maior facilidade, por exemplo, que uma peça clássica. Tanto o flamenco como o jazz podem se dar bem, porque são fruto de muitas misturas. Acredito que tudo evoluiu, mas o cante está aí. É preciso ter critério e cuidado, para não confundir as coisas.

“…se parecia a un Dios que hablase despacio…” (Cd Sueño Flamenco, Tangos – Réquiem por Manolete)

Pedro por Pedro

pedro_por_pedroCom quantos anos você começou a cantar?
Aos 18 anos subi, pela primeira vez, a um palco. A verdade é que comecei ainda muito pequeno. Era muito tímido e aproveitava para cantar quando a minha família saía. Numa sexta feira, fui até a peña que meu pai freqüentava, e comecei a cantar. Tinha perdido o meu pai havia dois anos, e todos os que estavam ali o conheciam. Quando cantei foi uma comoção geral! Então, o presidente da peña me chamou para fazer um trabalho em um festival no México, e a partir daí começaram a aparecer convites para cantar em peñas, participar de concursos, em escolas e academias de dança, até que um guitarrista que conheci em Barcelona, que toca para Mayte Martín, Juan Ramón Caro, trabalhava como diretor musical em um tablado em Alicante e me chamou para cantar lá. No início eu tinha muito receio. Já haviam me chamado até para cantar em uma companhia em Madri, e eu sempre com o pé atrás. Mas dessa vez pensei, bem, o que eu quero é cantar, e tenho que tentar! Se não for bem, depois de dois anos, volto para minha casa. Eu fui, depois estive dois anos em Barcelona e dali fui para Madri, onde trabalho em um conservatório de dança e daí…

Brasil…
Sim, hoje Brasil, amanha Tóquio, e não posso reclamar, de verdade!

Você gravou o cd “Sueño flamenco” já há um tempo. Não está na hora de gravar outro?
Sim, as pessoas têm me dito que já tenho que gravar outro cd, mas isso é algo delicado. Em carreira solo, tenho apenas Sueño Flamenco, mas já fiz participações em trabalhos de outros artistas, como Rafael Amargo e Flávio (Rodrigues). Mas gostaria de fazer outro trabalho. O primeiro cd foi gravado quando ninguém me conhecia. Agora seria um bom momento!

Publicar comentário