Na trilha d´El Rocio

 

A entrevista a seguir inicia uma série que tem como pauta os grupos de flamenco mais expressivos do Brasil. Escolhemos El Rocio para inaugurá-la por ser o mais antigo em atividade até hoje: há 70 anos era criado pela Sociedade Hispano Brasileira de Socorros Mútuos, Instrução e Recreio, atualmente conhecida como Casa de España, ou simplesmente Hispano. Saiba mais, ao ler a matéria a seguir.

O nome tem um quê de poesia – Rocio (orvalho, em português) – e batiza um dos grupos de dança flamenca mais tradicionais de São Paulo. Tradicional pela sua história, pois há 70 anos foi criado pela Casa de España. Por lá passaram nomes que deixaram suas marcas no flamenco em São Paulo – Laurita Castro, Iracy Prades e Antonio Benega, só para citar alguns. Mas a tradição pára por aí – desde 2006 sob a coordenação de Adriana Perez, que integrou o corpo de baile Laurita Castro, os integrantes d´El Rocio buscam desenvolver uma identidade e trabalho próprios.

Ser parte de uma das casas mais tradicionais e carregadas de história dos imigrantes espanhóis tem as suas vantagens: em apenas dois anos, esses flamencos subiram ao palco 14 vezes, apresentando-se para um público, a cada noite, estimado em 700 pessoas. Faça os cálculos: quase 10 mil pessoas assistiram às suas apresentações. Número que, por si só, impõe respeito. Mas eles querem mais.

Simpáticos, alto-astral, atenciosos e, sobretudo, apaixonados pelo flamenco. As nove bailaoras, dois guitarristas e um percussionista se dedicam a ensaiar e a criar um repertório próprio, tanto musical como coreográfico. “Aqui, todas as coreografias tem o dedo de cada um de nós, inclusive, do André (Rodrigues)”, conta Adriana Perez.

No início, os novos integrantes começaram a se reunir “sem compromisso”. “Chamei um aqui, depois apareceu outro ali, e aos poucos a atual formação foi se constituindo”, continua Adriana. Assim, lentamente foram recebendo bailarinos e músicos, e todos passaram a se envolver e a se comprometer cada vez mais. Os músicos são um dos diferenciais nessa formação, com a presença permanente dos dois guitarristas que assinam as criações musicais, André Rodrigues e Fabio Moraes. Desde o início, a proposta dos novos integrantes tem sido criar e montar trabalhos próprios. Para que isso ocorra, a presença deles é vital. Quem tem o privilégio de trabalhar com um guitarrista sabe a importância que isso tem. No flamenco, baile, cante e toque se completam e complementam – tal característica torna esta arte única.

Cumplicidade e respeito

Uma característica que, muitas vezes, destrói tantos artistas – e agora, fazendo uma referência à arte em geral, e não apenas ao flamenco – não parece atrapalhar as atividades do grupo da Casa de España. Considerado o bicho papão por alguns, outros não se atrevem sequer a pronunciá-lo. É o ego. “Aqui, não brigamos para ver quem fica na frente”, conta Evllyn Amaral, que já participou de diversas formações anteriores e fala com conhecimento de causa. Adriana complementa: “acredito que a ausência de competição entre nós é o que tem nos ajudado a ter um resultado maravilhoso em tão pouco tempo”.

A ausência de egos e imposições tem sido o segredo do sucesso. “Nada é imposto para nós”, conta Fernanda Figueiredo, ex-integrante do Laurita Castro, que aceitou de bom grado o convite feito para compor o baile. “Vim sem expectativas, para dançar ao lado de uma amiga querida, mas acabei me envolvendo aos poucos, e cada vez mais. Fui vendo os resultados e fiquei”, relata orgulhosa.

Já Patricia Carreta, que há anos dedica-se ao estudo da dança flamenca, chegou com muitas expectativas. “Sempre tive vontade de dançar em um grupo, mas nunca tinha sido convidada ou chamada para participar de algum. Vim cheia de expectativas e elas foram plenamente satisfeitas”, afirma.

Ao recordarem os primeiros ensaios, gargalhadas ecoaram pela nova sala de ensaio – esta, aliás, uma das conquistas obtidas junto à direção da Sociedade Hispano Brasileira. “O que todas sabíamos fazer juntas?”, lembrou Camila Monte, que junto com Patricia, ministra aulas de flamenco no clube. “Sevilhanas!”, responderam todas. E das sevilhanas passaram para as alegrías, tangos, soleares…

Em 2008, participaram do Festival Internacional de Flamenco de São José e colheram muitos elogios, tanto do público como de nomes importantes do flamenco no Brasil – como Pepe de Córdoba, Luciano Khatib, Miguel Alonso e até de La Truco (Espanha). “Poucas pessoas do Estado nos conheciam. Chegaram a nos perguntar se éramos do Sul”, lembra Adriana.

Para André Rodrigues, a explicação para o sucesso que fizeram no festival de S. José é simples: muito ensaio e dedicação. Mas, além disso, ele reconhece que ser um guitarrista que sempre comparece aos ensaios faz toda a diferença. “Isso é essencial para um grupo que quer se firmar e construir uma identidade”, afirma. Para ele, é um enorme incentivo participar de um projeto com o qual pode contribuir com a sua própria música, sem ter que tocar uma falseta já criada por outro profissional. “Sem querer desmerecer ninguém, mas para um músico, poder colocar a sua própria música em uma coreografia é algo que não tem preço”, diz.

Para ele, o ideal é que existam mais festivais como os de S. José, que de alguma forma incentivem a participação de iniciativas que tenham qualidade. E Fábio Moraes complementa: “se as pessoas virem o que estamos fazendo, vão perceber que é possível, sim, ter um flamenco de qualidade no Brasil”.

Pensando o flamenco

Formado em sua maioria por profissionais liberais que há anos se dedicam ao estudo do flamenco, seja na música ou na dança, os artistas do mais antigo conjunto flamenco do Brasil também já enfrentou o dilema que assola tantos outros, e cuja discussão já suscitou tantas outras: profissionais ou amadores?

André tem a resposta na ponta da língua: “Profissional ou não, o importante é a dedicação. Trabalhamos nos moldes de uma companhia, com muito ensaio e dedicação de todos”, defende. A principal diferença para uma companhia profissional de dança, seja flamenca ou não, está nas finanças: mesmo com o apoio do Clube Hispano, nenhum dos componentes – nem músicos, nem bailaoras – é remunerado por isso. Por outro lado, existe uma divisão interna de tarefas, conforme a disponibilidade de cada um. O processo de criação é coletivo – cada coreografia tem a contribuição dos componentes, sempre sob a coordenação de Adriana.

El Rocío chama a atenção, porém, por pensar o flamenco, questionar-se a respeito dos próprios caminhos e do panorama desta arte no Brasil. Isso porque se por um lado conta com o “gás” dos jovens integrantes, por outro dispõe da experiência dos que vivem o flamenco há mais tempo. Vontade e sabedoria se equilibram em um mesmo corpo.

Pensar à frente é um dos resultados desse equilíbrio. Neste semestre, o grupo terminará o projeto que quer levar ao teatro em 2010. “Temos a pretensão, sim, de mostrar o nosso trabalho em um teatro”, afirma Adriana.

No entanto, não se trata somente de entrar em cartaz. Os integrantes querem, através de seu trabalho, contribuir para o crescimento e o fortalecimento do flamenco não só em São Paulo, mas no país. “Queremos levar a arte flamenca para um número cada vez maior de pessoas e promover também uma troca maior entre os profissionais que desenvolvem o flamenco aqui”, continua Adriana.

“O que estamos fazendo é apenas o começo”, completa André. “Queremos mostrar para as pessoas, tanto do meio quanto de fora dele, que estamos fazendo algo sério, sempre em busca de qualidade”. Porém, antes de continuar a conversa sobre os planos para os próximos meses, o guitarrista faz uma constatação bem realista, quando se fala de arte no Brasil: “antes de qualquer coisa, é preciso sobreviver”. E finaliza: “Queremos que nos conheçam, queremos acrescentar, somar aos demais e mostrar que com dedicação tudo é possível”.

Já para Adriana, o motor para alcançar tudo isso é o que existe entre eles. “Não tenho ilusões em relação ao flamenco. O que vale mesmo é a relação que existe entre a gente e que nos possibilita desenvolver o nosso trabalho”, acrescenta.

E chegaram os espanhóis…

A Sociedade Hispano Brasileira de Socorros Mútuos, Instrução e Recreio, hoje conhecida como Casa de España, ou simplesmente Hispano, foi fundada em 13 de março de 1898 por imigrantes espanhóis, numa época em que, tanto a Previdência Social na Espanha, como a Assistência Social no Brasil, praticamente não existiam.

A finalidade da Sociedade, como o próprio nome diz, era o de atender e abrigar os espanhóis e suas famílias que aqui chegavam em busca de melhores condições de vida e trabalho. Seu papel era difundir e preservar os valores da cultura espanhola, facilitando as condições para a adaptação e integração no meio profissional e social na sociedade brasileira, ajudando-os principalmente nos problemas de saúde, pois muitos chegavam doentes depois da difícil e longa viagem.

Assim como a própria Espanha, com um povo dividido em tantas regiões com características culturais e, muitas vezes, idiomas próprios, os espanhóis que aqui chegavam acabavam também fundando suas próprias congregações. Por isso, havia a Casa de Galícia, o Centro Asturiano, o Instituto Regional Valenciano, o Centro Andaluz, a Casa de Aragón e o Centro Democrático Hispano-Americano. Em 1972, acabaram todos integrando seus acervos culturais e respectivos associados na atual Sociedade Hispano Brasileira de Socorros Mútuos e Instrução – Casa de España.

Com a evolução dos sistemas de Previdência e Assistência Social no Brasil, os objetivos médico-assistenciais deram lugar a uma reorientação de objetivos, prevalecendo hoje a preservação e difusão – entre espanhóis e brasileiros – da cultura e língua espanhola. Hoje, não faltam na Casa de España atos culturais e festas típicas dedicados a cada uma das regiões mais representativas da Sociedade, como Galícia, Valencia, Andalucía e Astúrias, culminando com a comemoração da “Hispanidade”, sempre em outubro.

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