Morte e Vida Sevilhana

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Enquanto caminha ao longo da rua principal do centro de Sevilha, ao sul da Espanha, um homem de cabelos negros, meticulosamente penteados para o lado direito, parece absorto em seus pensamentos. Ele acaba de tomar um xerez no início da rua Sierpes e vai em direção ao último bar da calle. Mais à frente já se enxerga a plaza La Campana. Senta-se, sem perceber, bem no centro numérico da cidade, o lugar de onde parte a numeração de todas as ruas de Sevilha. Uma coincidência pouco notável se o homem descrito não fosse João Cabral de Melo Neto, o poeta brasileiro que inaugurou a construção funcional da poesia modernista, inspirado na arquitetura do francês Le Corbusier, e a cidade em que ele se senta não fosse aquela que mais o inspirou a escrever seus poemas.

Nascido em 1920, no Recife, João Cabral diz em um poema intitulado Auto Crítica que “só duas coisas conseguiram desferí-lo até a poesia: o Pernambuco de onde veio e o aonde foi, a Andaluzia. Um, vacinou do falar rico e deu-lhe a outra, fêmea e viva, desafio demente: em verso dar a ver Sertão e Sevilha.” O poema, composto por apenas oito versos, explica muito da obra de seu autor, diplomata e quinto ocupante da cadeira número 37 da Academia Brasileira de Letras. Cabral encontrou na cultura andaluza uma fonte de admiração. “Todas as manifestações culturais espanholas me abalam profundamente.” diz ele, em entrevista realizada em 1999 para o documentário Recife/Sevilha.

Se o objetivo desse pernambucano era “dar a ver em verso Sertão e Sevilha”, a poeta espanhola Cinta Massip, que traduziu a obra do autor para o catalão, acredita que ele se saiu muito bem, no que diz respeito à parte andaluza, “Cabral captou perfeitamente, como ninguém nunca conseguiu na literatura espanhola, o ritmo do flamenco. Isto é uma coisa única, que um personagem que conhece tão pouco este mundo capte com tanta sabedoria o que é o conceito da música flamenca, que é ritmo. Isso Cabral fez como ninguém, nem Federico García Lorca.” Ele que é até hoje o poeta espanhol mais lembrado quando se trata da arte flamenca, seus poemas são interpretados pelos grandes cantores e foi ele o autor da peça teatral Bodas de Sangre, que o cineasta Carlos Saura adaptou para o cinema em 1986. Ao comparar João Cabral com Garcia Lorca, a poeta espanhola revela que o tema flamenco em Cabral não foi apenas pedaço de sua obra, e sim uma manifestação apaixonada que marcou a própria história da arte flamenca, ainda que essa obra seja pouco conhecida.

O estilo da poesia Cabralina é inspirado na poesia espanhola que, segundo o poeta, “é a mais concretista do mundo”. Ele afirma que a forma espanhola começou a pesar em sua obra a partir do livro de poesias O Cão sem plumas que foi publicado em 1950. Três anos antes da publicação desse livro, o poeta havia sido transferido para o Consulado Geral em Barcelona, como vice-cônsul. Lá, ele adquiriu uma pequena tipografia artesanal e publicou livros de poetas espanhóis e brasileiros. Talvez, tenha sido onde teve o primeiro contato com o estilo de poesia que marcaria sua produção futura, incluindo o auto Morte e Vida Severina, publicado em 1956.

A cidade

edição de áudio Roberto Vargas locução Luiza Medeiros e Rodrigo Faraco

É no ano de 1956 que Cabral passa a residir em Sevilha, como cônsul adjunto. Para ele, é a cidade mais encantadora da Espanha. Sua filha, Inez Cabral, lembra que a relação dele era especificamente mais intensa com o bairro de Triana. “Muitas vezes quando ele ia buscar a mim e a minha irmã na escola ele dizia, olhando para as mulheres do barrio Santa Cruz, um bairro de classe alta, que as andaluzas eram muito feias. A fixação dele era por Triana, um bairro boêmio onde viviam as gitanas andaluzas.”

O professor de literatura Pablo del Barco, que traduziu alguns poemas de João Cabral para o espanhol, acha que foi a arquitetura da cidade, com as ruas estreitas cobertas de paralelepípedos, que atraiu o poeta brasileiro, assim como o clima alegre e boêmio de Sevilha. Já Inez Cabral acha que a relação de seu pai com Sevilha “era tesão mesmo. Eu atribuo a tesão. Não acho que há outra palavra para isso. Ele tinha uma história especial com as ciganas dele, com a aparência física delas.”

O Flamenco

edição de áudio Roberto Vargas locução Luiza Medeiros e Rodrigo Faraco
violão Gabriel Simões sapateado Marilyn Mafra

“A música me faz dormir; o flamenco me faz acordar.”

Essa frase foi dita por João Cabral no documentário Recife/Sevilha em 1999, numa tentativa de explicar o porquê do tema flamenco ter tomado conta de sua obra. O poeta conhecia os termos técnicos do baile flamenco e sabia a diferença entre os diferentes estilos, ou palos, da música flamenca e a região de onde vinham. “Ele sempre gostou de mergulhar nos estudos”, conta Inez. “Quando ele ficava apaixonado por alguma coisa, como ficou pelo flamenco, era mais fundo ainda o seu mergulho.”

 

O Toureiro

edição de áudio Roberto Vargas locução Luiza Medeiros e Rodrigo Faraco

Cabral conta que enquanto morou em Sevilha conheceu um amigo próximo de Manolete, o toureiro mais conhecido da Espanha. Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, o Manolete, nasceu em Córdoba e morreu em 1947, durante uma tourada em Jaén. Levou uma cornada do touro que enfrentava e morreu momentos antes do touro. Há hoje na cidade uma estátua em homenagem a ele. O poeta adorava os movimentos do toureiro e fala com orgulho que o amigo de Manolete dizia que se ele ainda fosse vivo seria o melhor amigo de Cabral, pois nunca tinha visto na vida duas personalidades tão parecidas com as de Cabral e Manolete.

“Como o baile flamenco me interessava porque era um fazer no extremo, a corrida de touro também é fazer no extremo. O sujeito se expõe à morte.”

A Morte

Cabral disse, certa vez, que se pudesse escolher um lugar para morrer, escolheria Sevilha ou o Rio de Janeiro. Morreu em um sábado, dormindo em seu apartamento no Rio de Janeiro. E por ser sábado à noite nenhum jornal conseguiu publicar a notícia de sua morte no dia seguinte. A Folha de S. Paulo conseguiu fazer circular em São Paulo um caderno especial em homenagem ao poeta, mas o resto do país ficou sem a informação. Apenas na terça-feira é que os jornais publicaram reportagens especiais sobre a morte do pernambucano. Por causa do feriado, muitos leitores de jornal só tomaram conhecimento na quarta-feira, quatro dias depois. Houvesse morrido em Sevilha, ele seria enterrado em Triana e os gitanos bailariam por taranto para lamentar a morte do maior poeta flamenco.

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