Entrevista com Flávio Rodrigues

Depois de dez anos na Espanha, o guitarrista brasileiro Flávio Rodrigues lançará seu primeiro CD no Festival Internacional de Flamenco, em São José dos Campos. Ele fará turnê em seis cidades com o projeto Guitarrísmo, promovido pelo Instituto Cervantes. Flávio fala sobre sua trajetória com exclusividade ao Flamenco Brasil.

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Durante a entrevista, a sensação é de conversar com um velhinho simpático e bem humorado, mas Flávio é só um jovem de 30 anos. Um menino bonito. As experiências são muitas e as histórias, inúmeras. Imagine um garoto de cinco anos tocando violão. Foi assim que Flavio Rodrigues começou seu caminho com muitos encontros, acasos, dedicação e, porque não, uma dose de sorte no universo musical. A família foi fundamental na estrutura da sua formação profissional. Todos ali, de alguma forma, estão voltados à música ou à arte, profissionalmente ou simplesmente por amor. Incentivo não lhe faltou. “O tempo passa muito rápido e a gente se dá conta de que é isso mesmo, que é preciso acreditar no que se faz. Seguir firme. Eu comecei muito cedo e graças a Deus, tive muito claro o que queria fazer, até porque meus pais sempre me alertaram nesse sentido. Tive uma boa educação, não rígida, mas meus pais nos conscientizaram sobre o que deveríamos querer com o futuro. Eu tive muito suporte. Minha mãe, chegou para mim e meus irmãos – somos em quatro – e disse: ‘Olha, não quero saber de ninguém dando voltas, fazendo o que quer. Só poderão ficar em casa até os 24 anos, que dá tempo de sobra para fazerem uma faculdade e estarem no mundo trabalhando. E a faculdade que eu pago é a USP! Estou pagando colégio bom para vocês passarem direto!’ Isso ficou muito forte na minha cabeça”, conta Flavio.

Desde menino já tinha sonhos e vontade de ser músico. Não queria fazer faculdade, mas apenas tocar. “Vou ter que estudar demais. Daqui a dez anos, vou ter que estar tocando muito!” lembra. O artista ‘caiu no mundo’ cedo. Convivia com pessoas com o dobro ou o triplo da sua idade. O aprendizado foi intenso. A maturidade chegou acompanhado da cautela.

“O tempo passa muito rápido e a gente se dá conta que é preciso acreditar no que se faz”

Pedra bruta lapidada pela vida

Flavio estudou violão, piano, bateria e até chegou a cantar em um coral. Quando tinha 10 anos, o flamenco literalmente bateu em sua porta. Um amigo de sua irmã, vindo de Jerez, trazia uma guitarra flamenca, cd´s, livros e vídeos.

Esse primeiro contato foi essencial para seu universo. Despertou a sua curiosidade e a vontade de voltar a tocar violão, pois havia parado para conhecer outros caminhos. “Quando ouvi a música, tive a certeza do que queria fazer na minha vida. Até achar o Centro Flamenco Pepe de Córdoba e o Fernando de La Rua, passaram-se quatro anos. Neste intervalo estudei violão na escola Groove com Levy Miranda. Aprendi teoria, jazz, música brasileira, um pouco de violão clássico, muito violão popular e tudo isso foi importante porque me deu estrutura musical para depois encarar o flamenco, com uma base rítmica, forte como um chão firme, um alicerce bem sólido”, conta.

Com apenas dezenove anos foi para a Espanha, mas Flavio já tocava profissionalmente desde os dezesseis. Tinha acabado de terminar o colegial e precisava do mais importante: a liberdade. “Foi quando realmente recebi a carta de alforria da minha família e não tive dúvida. Era só uma questão de tempo para me organizar e estudar três meses com o guitarrista Manolo Sanlúcar, Gerardo Nuñez e comprar uma guitarra”. Esse era o plano. Ficou um ano.

Na volta para o Brasil encontrou amigos músicos com quem pôde trabalhar em alguns projetos, como Cisão Machado, “um baixista maravilhoso”, e o “amigão de toda a vida”, o violonista Yamandú Costa. “Esse ano no Brasil foi para digerir tudo que aconteceu na Espanha. Pensei: o negócio é lá mesmo. Vim mais uma vez para a Espanha em 2000, com a idéia de morar aqui. Estou há quase 10 anos sem atuar no Brasil”, afirma.

“A vida aqui não é nenhum mar de rosas. Fui, aos poucos, conquistando um espacinho que ainda preciso defender todo dia. Não achei que iria chegar e já ter trabalho. Como havia morado aqui, tinha alguns contatos e portas abertas. Conhecia alguns locais e sabia um pouco como funcionava o mercado e a cultura”, conta Flavio.

Foi um processo lento, porém contínuo. Seu primeiro trabalho foi na escola Amor de Dios, tocando em algumas aulas para artistas como Manuel Reyes, Manuela Carrasco, Domingo Ortega e La China, uma das pessoas mais importantes na carreira deste músico desde quando ele tinha 16 anos e presente na sua vida até hoje.

Mesmo trabalhando profissionalmente com o flamenco no Brasil, Flavio sentiu uma grande diferença ao chegar na Espanha. No Brasil não existem os recursos que a Espanha oferece. Além disso, por ser criativo, o músico brasileiro se adapta muito com aquilo que tem. “A gente se vira muito bem com as nossas adaptações e o jeitinho brasileiro para resolver certas deficiências. Acabamos fazendo e levando adiante, e ainda fazemos acontecer. Isso é muito bom e positivo. Porém, não podemos deixar de perceber que aqui na Espanha temos recursos que são fundamentais para que o flamenco seja autêntico e genuíno”, compara o músico.

O outro lado da realidade

Segundo o artista, o cante é um dos problemas que acontece em todos os países, inclusive na Espanha. “Existem poucos cantaores e os poucos que existem, são muitas vezes pessoas de difícil relacionamento e com pouca formação profissional. São profissionais cantando, mas nem sempre são profissionais fora do palco. Na forma e no conteúdo. Existem vários aspectos da profissão para compreender. Ser profissional não é só subir no palco e tocar, cantar e dançar. Ser profissional envolve uma série de outros fatores. Talvez isso dificulte para que o flamenco chegue aos conservatórios. Nos Estados Unidos, por exemplo, existem universidades de Jazz. Isso na Espanha ainda não é uma realidade. Mas existem aqueles que se empenham em reconhecer o valor que o flamenco verdadeiramente tem”, analisa o guitarrista.

Ele conta que existem inúmeros recursos para se profissionalizar e aperfeiçoar na Espanha, mas é necessário aprender a lidar com eles. O músico, ainda, aprofunda mais a comparação entre ser profissional no Brasil e na Espanha. Aqui, as companhias profissionais, o cante, o baile, a guitarra, e os tablados se formam por meio de adaptações de recursos, e suprindo as suas próprias necessidades. Já na Espanha a profissão é mais desenvolvida e existe um forte dinamismo. “É necessário entender e entrar nesse mundo das instituições e organizações. Entender o lado acadêmico do profissional docente, o lado do show business, aquele profissional prático, o de performance, de tablado e aprender a trabalhar em cada esquema. Cada espaço tem suas exigências. O tablado é um formato que existe há séculos na Espanha e se mantém super bem. Cada tablado tem uma linha e um esquema, é preciso conhecer as casas e como se trabalha em cada uma. Nas companhias de dança é a mesma forma. Cada uma tem a sua política e regras. O tratamento é diferente, de chefe e empregado. Tudo depende do lugar que se ocupa nessa companhia, se você é um músico, um diretor musical, um bailarino ou um cantaor.

O desafio de ser estrangeiro

“A gente tem que mostrar o dobro de serviço, para demonstrar que a gente pode fazer. Porque a gente é estrangeiro e sempre vai ser estrangeiro, é um certo peso que a gente se coloca, mas às vezes as pessoas nem olham a gente assim. Nós nos acostumamos a lidar com isso. A minha seriedade e minha dedicação também são frutos disso. A gente tem que mostrar e o esforço é muito grande. Não pode dar a menor brecha para que alguém fale que não fazemos direito. Qualquer coisa que aconteça, por mais que tenha um cargo de alta responsabilidade sempre pode sobrar pra você”, desabafa.

Competência e esforço deram ao músico a direção musical da companhia de Rafael Amargo, durante seis anos. Trabalhando há três anos em um tablado, queria muito tocar numa companhia. Começou com uma substituição de um guitarrista em três espetáculos de Poeta em NY em Madri. Após temporada em Barcelona, recebeu o convite para fazer a direção musical. Era muita responsabilidade. “A sensação foi impressionante e a verdade é que tenho uma relação com Deus ou com o universo: no que eu lanço meus pensamentos, é uma questão de tempo para acontecer. Depois de alguns anos, olho para trás e penso ‘puxa vida, eu tinha pedido justamente isso!’. Tenho aprendido muito na vida. A gente planta e colhe. Foram seis anos intensos e de muito trabalho. Eram, em média, 250 shows por ano, dirigindo, compondo, tocando e montando em seguida outro espetáculo, porque o Rafael Amargo não parava. Estreava um espetáculo e em seis meses já estava montando outro”, lembra.

As conquistas não pararam por aí. No ano passado, foi convidado para montar em Londres o espetáculo Zorro, ainda inédito no Brasil. Teve a difícil função de ser o “Flamenco Supervisor” do espetáculo, com músicas de Gipsy Kings e direção de Christopher Renshaw. “Foi uma experiência maluca, porque era outro universo. Um musical estilo Broadway. Montei as guitarras flamencas e morei quase dois meses em Londres”, diverte-se. Logo após, foi convidado para fazer uma turnê do disco Universal Daughter da banda dinamarquesa The Savage Rose.

Saudade? Flavio sente saudades de lugares, de muitas pessoas, de comidas, de sabores, de cheiros. “Mas não se pode viver de nostalgia, é preciso viver o presente e desfrutar o lugar onde a gente está, com quem estamos naquele momento e ser feliz. Essa foi uma das conclusões que tirei quando vim morar na Espanha. Ser feliz onde estiver. Se estou no Brasil, vou curtir, se estou na Espanha, também. É a coisa mais legal que tem”, define.

Um pouquinho no Brasil

Neste mês Flavio lança seu primeiro cd, Anyway

Neste mês Flavio lança seu primeiro cd, Anyway

Flávio se prepara para vir em breve ao Brasil para participar de vários eventos, entre eles, o Festival Internacional de Flamenco, em São José dos Campos. Além de encontrar os amigos e trabalhar, reservou um tempo para fazer um evento beneficente. É um orfanato chamado Casa do Caminho no Embú, onde seus pais trabalham como voluntários. Ele chama alguns músicos para colaborar e arrecadar fundos para essa entidade.

Além disso, foi convidado a participar do projeto Guitarrísimo, produzido pelo Instituto Cervantes e lançará seu primeiro cd, Anyway, gravado durante dois anos. O trabalho conta com a participação de quinze artistas, como Marcelo Fuentes, Carmina José, entre outros. “Estou super animado com a ida ao Brasil porque são praticamente 10 anos sem atuar no meu país. Para mim, é o maior prazer e alegria poder voltar agora, com meu disco terminado. Vou ter a oportunidade de mostrá-lo e me apresentar”, alegra-se.

Mesmo com tantas conquistas, o músico continua a sonhar. Sempre otimista, pensa na forma de melhorar o mundo onde vive. Espera que as pessoas possam ser mais honestas. Sonha em ter filhos, gravar muitos cd´s e viajar. “Quero viajar levando a música com todo o meu coração e a melhor das intenções, compartilhando o meu sentimento de alegria com as pessoas”.

E finaliza: “Acho importante nunca colocar limites nos nossos objetivos. Se trabalharmos forte e com muita seriedade, os atingimos. Eles mudam quando chegamos a uma meta, e automaticamente passa a ser outra. Isso é fundamental, para não ficarmos cristalizados numa situação e na vida. Sou privilegiado, pois consegui realizar coisas que jamais imaginei que realizaria. De alguma maneira, estou colhendo os frutos de um trabalho de 10 anos de dedicação total”.

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