O baile de Carmen Amaya

O compasso de Carmen  Amaya era de aço, com um sentido prodigioso do ritmo, com um tempo implacavelmente rigoroso, que deleitava por sua perfeita exatidão em um turbilhão de movimentos.
Nunca ninguém deu os giros como ela. Fazia parte deles: a rapidez e  a perfeição. Sua impressionante volta quebrada com uma curvatura que ninguém mais há alcançado.

Improvisava continuamente, sempre criava algo sobre o andamento, de repente sincronizava com os demais no momento da chamada os golpes mais intensos que convidam a parar no momento mais crucial.

Fazia o que lhe dava vontade, guiada unicamente por seu próprio instinto, e em cena sempre tinha  novas idéias de forma espontânea;  era a personificação da criatividade. Carmen, por exemplo, foi quem inventou a “punta de redoble” para trás no sapateado, e o sapateado compassado.

Carmen aperfeiçoou com grande maestria a imobilidade da planta do pé; assim, combinando o redobro de ponta com o trino, elevou a sua maior expressão da arte do contraponto.

A respeito das variações na intensidade de seu  sapateado, Carmen possuía o domínio mais absoluto do som, combinando o de planta com o golpe e tacón.
Os braços de Carmen nunca foram vulgares. Eram expressivos e por vezes muito sóbrios para sua época, já que nem os mantinha caídos, nem fazia com eles floreios.

Em cena, enriquecia seus ritmos com o som dos pitos e das castanholas. Não dá para esquecer sua forma de entrar.

Em seu giro, descia com uma curvatura incomparável que sua cabeça quase encostava o chão do palco, ondulando ligeiramente os quadris e fazia soar seus dedos com pitos secos e redondos que marcavam uma espécie de “ritmo interior”.
Imediatamente ficava quieta, colocava a planta do pé um pouco avançada e começava seu sapateado infernal, trágico e contagiante.


Patrick Shupp (bailaor) em depoimento a Mario Bois.


Fonte: El Baile Flamenco (Ángel Álvarez Caballero)

Publicar comentário