Thaís Rosa: “Gosto de cantar flamenco porque é muito forte e extremamente expressivo”

Thaís Rosa Siegle tem 26 anos. Natural de Porto Alegre, cantava música brasileira e reggae antes de cantar flamenco. O flamenco entrou em sua vida por acaso. O baile entrou em sua vida antes do cante. Em início de carreira, é apontada como uma das revelações do cante no país. Nesta entrevista, ela comenta a sua relação com o flamenco, fala da cena flamenca em Porto Alegre e anuncia que chegou o momento de apostar as fichas no flamenco.

Thaís Rosa | Foto: Tiago Trindade

Thaís Rosa | Foto: Tiago Trindade

Lunares: Como aconteceu o seu contato com o flamenco?

Thaís Rosa: Comecei a cantar flamenco porque primeiro comecei a bailar. Sempre estive envolvida com a música. Desde criança cantava em corais e fazia aulas de tudo que é tipo de dança: jazz, street, ginástica rítmica e dança do ventre. Eu cantava música brasileira e reggae quando comecei a bailar flamenco. O cantaor do Tablado Andaluz, onde eu fazia e faço até hoje as minhas aulas de baile, resolveu tirar umas férias e então me convidaram para cantar nas peñas que acontecem todos os finais de semana no Tablado. No início, fiquei apavorada por que não sabia simplesmente nada. Com o tempo, fui me interessando, estudando e me realizando com o cante.

L: De que maneira o flamenco faz parte do seu cotidiano?

TR: Bom, eu sou bem sincera em dizer que poderia ouvir mais flamenco enquanto cozinho, leio ou até quando limpo a casa. Acho que nesses momentos que a gente não está tão preocupada em se concentrar é que a cabeça absorve mais. Mas ouço mais quando tenho de estudar uma certa letra para cantar. Ouço de tudo e se me interessar também canto de tudo. Faço aulas de baile toda a semana, o que também me deixa tão feliz quanto o cante. Canto todos os finais de semana no Tablado Andaluz e também participo de shows com outros grupos que com o tempo foram me conhecendo e me convidando para cantar. Se sonho com o flamenco? Olha, se sonhei com música umas cinco vezes na minha vida foi muito! É engraçado.

L:Como é a relação de Porto Alegre com o flamenco?

TR: A relação de Porto Alegre com o flamenco vem crescendo, sempre. As pessoas aqui se identificam muito com essa arte. Acho que é por causa do nosso tradicionalismo gaúcho, o sapateado, as roupas semelhantes, a música. Sempre vejo algum músico, aluno de baile ou cantor que quer aprender ou até mesmo seguir adiante como carreira profissional, o que já é o caso de dois alunos do Tablado. Um deles de 13 anos e outra de 19 anos, que com menos de um ano de aulas já se apresentaram em alguns shows. Um grande talento do flamenco aqui de Porto Alegre é o Pedro Fernández. Ele não só baila, como canta, toca cajón e é o nosso diretor musical da banda e do grupo de baile do Tablado. Ele tem 19 anos e vive no meio flamenco desde criança. Porto Alegre ficou muito pequena para o Pedro. Agora ele está na Espanha investindo na sua carreira e acho difícil ele voltar. O guitarrista Giovani Capeletti também é um talento. Ele estuda bastante e representa a qualidade da guitarra flamenca aqui do sul. A bailaora Andréia Del Puerto representou muito o flamenco aqui do sul. Infelizmente, faleceu no ano passado mas sua escola e sua companhia de baile continuam, de onde nasceu um outro talento no baile que é a Juliana Prestes.

Thaís Rosa | Divulgação

Thaís Rosa | Divulgação

L: Ao cantar flamenco, você sai de si?

TR: Olha, estou sempre consciente quando canto. A energia e a emoção são muito fortes porque faço uma coisa que amo. Mas também dependo muito de quem está tocando comigo. Eu troco muita energia no palco e quando tem alguém que não está muito legal, ou que eu não tenha muita afinidade, tento esquecer porque capto muito isso e, então, às vezes, perco um pouco a concentração em mim mesma preocupada com o outro. A banda e o grupo têm de ser uma família.

L:O seu aprendizado flamenco é contínuo?

TR: Pretendo investir mais no flamenco a partir de agora. Estão surgindo novos convites para trabalho. Acho que chegou o momento de acreditar mais e seguir em frente. Nunca fui para a Espanha, mas isso já está nos meus planos. Gostaria de fazer aulas de cante com Talegón de Córdoba e alguma voz feminina. Participei do workshop que ele realizou no Festival de Flamenco de São José dos Campos de 2007. Ele canta muito, sem falar no volume e potência de voz. Conhece muito da história. Quem também me ajudou com estrutura e cante aqui em Porto Alegre foi o Pedro Fernández. O Tablado Andaluz sempre me apoiou muito.

L:Por que flamenco?

TR: O flamenco entrou na minha vida por acaso. Acho que gosto de cantar flamenco porque é muito forte e extremamente expressivo. E o que me incomodava em cantar bossa nova, por exemplo, era essa falta de “botar pra fora mesmo”. Não viveria sem o flamenco agora. Mas daqui há alguns anos, talvez. Nunca consigo fazer sempre a mesma coisa, cantar as mesmas coisas. Estou sempre mudando.

Thaís Rosa | Divulgação

Thaís Rosa | Divulgação

L:Para onde o flamenco já te levou?

TR:Já fui para São Paulo no Festival de Flamenco de São José dos Campos em 2007 e aprendi muito. Sempre faço muitos shows em cidades do interior do meu estado durante o ano.

L:Para você, é possível viver sem cantar?

TR: Nunca. Nunca pararia de cantar. Isso nunca vai mudar. Posso mudar de um estilo para outro ou até trabalhar fazendo outras coisas que não estejam relacionadas com a música. O que seria e já foi horrível. Só sei que vou morrer velhinha e cantando, e espero que sobre um pouco de voz até lá.

L:Qual a sua expectativa em participar da Mostra Lunares de Flamenco em Curitiba?

TR: Ainda não conheço Curitiba e também não sei como é a relação da cidade com o flamenco. Vai ser uma novidade. Espero aprender muito, acrescentar o que eu sei, conhecer muita gente, muitos profissionais do meio. É essencial o intercâmbio entre artistas que trabalham com o flamenco. Como tudo na vida, muita troca e muito aprendizado.

Publicar comentário